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Histórias de amor moldam a gente

Na última edição da newsletter Women Who (que tem ótimas dicas de aperfeiçoamento profissional para mulheres) eu conheci a escritora inglesa Dolly Alderton e seu podcast Love Stories. A proposta da série de entrevistas é conversar com personalidades sobre como os relacionamentos que elas viveram moldaram suas vidas. Como eu adoro uma DR, eu achei o título do podcast bastante sugestivo e comecei logo a ouvir. O primeiro episódio foi com a atriz e amiga da entrevistadora Vanessa Kirby (a ~perfeita~ Margareth de The Crown, Netflix).

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É preciso estar atento ao Facebook

A notícia de que o Facebook quer unificar suas plataformas de mensagens instantâneas, divulgada por Zuckerberg na quarta-feira passada, me deixou um pouco preocupada. A empresa vai combinar os serviços do WhatsApp, do Instagram e do Facebook Messenger para que usuários possam enviar e receber mensagens por meio de qualquer uma das plataformas. A primeira coisa que me veio à cabeça quando li a notícia foi a lembrança das Eleições de 2018, quando o WhatsApp permitiu a proliferação de fazendas de notícias falsas que acabaram influenciando na votação.

Nós, usuários, estamos numa sinuca de bico. Se por um lado não queremos que o governos e agências de inteligência tenham acesso às nossas conversas, por outro temos que lidar com a desinformação tornando o nosso mundo mais ignorante e a nossa vida mais difícil. No Twitter, a diretora da Aos Fatos, Tai Nalon explicou a preocupação de quem trabalha contra a desinformação: “redes mais fechadas condensam mais falsidades, pois ajudam a esconder seus autores, da mesma maneira que integrar grupos menores e mais fechados tornam o debate menos plural”.

Além disso, o plano também envolve a expansão dos serviços de e-commerce e pagamentos da empresa, mas eles ainda não explicaram qual o papel do serviço de mensagens nesse grande sistema.

O Facebook corre

Numa entrevista para a Associated Press, a diretora de Estudos de Mídia da Universidade de Virgínia, Siva Vaidhyanathan explica que o objetivo de Zuckerberg é fazer com que as pessoas abandonem os competidores (e-mail, mensagens de texto ou o serviço de mensagens da Apple) para fazer tudo através de um produto Facebook. O objetivo é transformar o Facebook em um serviço como o chinês WeChat, que tem 1.1 bilhões de usuários ativos e é dono do mais popular serviço de pagamento on-line do mundo.

Parece que o Facebook forjou uma corrida para ver quem vai dominar a vida digital do planeta, ao mesmo tempo em que luta contra a competitividade e a regulamentação. The Guardian divulgou, inclusive, que a empresa está investindo pesado em lobby contra leis de privacidade e até jogando sujo com ameaças a políticos dos EUA, Canadá, Reino Unido e Brasil na tentativa de impedir a regulamentação.

Preocupada, a Comissão para Proteção de Dados da Irlanda está buscando detalhes sobre os próximos passos da empresa. Já que a sede europeia da empresa fica lá, a Irlanda é o país responsável pela fiscalização da rede na União Europeia. A ideia de maior integração entre Facebook, Instagram e WhatsApp é um rompimento do acordo da companhia com a UE na época em que a análise antitruste autorizou a compra do WhatsApp. É também, dependendo de como for implementado, uma ruptura da legislação de privacidade de Bruxelas. Esses acertos entre UE e Facebook podem moldar o mercado digital mundial e impactar diretamente em nossas vidas na forma como nos relacionamos com nossas famílias, amigos e empresas.

Como a gente fica nessa?

Como a resposta dos governos vem em passos de formiguinhas e as movimentações do Facebook correm contra o tempo pois buscam alcançar o controle do mercado mundial, os usuários são deixados à mercê da empresa. São os nossos dados e acessos que geram receita para o bolso de Zuckerberg, por isso é preciso estar atento ao que acontece com nossas informações. Ontem, no feed do Twitter, recebi um pedido de indicações de especialistas em privacidade digital e percebi que acompanho pouquíssima coisa sobre o tema. No mesmo tweet pude encontrar alguns perfis indicados que passei a seguir (@PrivacyMatters e @yaso), e encorajo todos a fazerem o mesmo. A melhor forma de se defender da coleta ilegal de dados é estando atento, até mesmo para perceber quando é a hora de parar de usar os serviços da empresa e buscar outros meios de se relacionar tanto com outras pessoas quanto com a informação.

Bom para o fim de semana

Como hoje é o Dia da Mulher, selecionei aqui duas dicas de leitura para mulheres se organizarem financeiramente, conhecerem melhor o corpo e a alma, e se inspirar com personalidades geniais. Dá uma olhada!

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Preocupações

Há doze anos eu crio uma ursa bastante felpuda chamada Miusha. Ela é esperta, não vai com a cara de todo mundo, morde e late de forma irritante quando se sente ameaçada, mas é um dengo só quando quer atenção. A gente costumava dormir juntas mas, depois que eu passei um ano ela fora, ela foi dormir com meu pai. Agora ela está idosa e eu começo a me preocupar por quanto tempo mais terei a sua companhia.

Há dois meses Ushinha está com complicações no mecanismo de defesa – os exames mostram baixa hemoglobina – por causa de alguma bactéria que ainda não descobrimos qual nem conseguimos acertar no tratamento. Nesses últimos dias, estamos realizando mais exames e buscando entender o que está acontecendo – e eu comecei a ter pesadelos.

Sonhei que eu aparava os pelos dela com uma tesoura e a cortava sem querer. Desesperada, saía correndo e voltava com um gelo para colocar na suca cabeça. Mas aí (começou a parte macabra) o focinho dela caía na minha mão e eu ficava olhando para a minha au felpuda sem o nariz. Acordei transtornada e dizendo para ela “me perdoe, me perdoe”.

Desde então eu só me preocupo. Me preocupo se vou conseguir tratá-la à tempo, se vou conseguir encontrar o medicamento certo, se ela está sofrendo de alguma forma que eu não sei, se eu devia ter feito algo antes – eu tentei, mas não funcionou. Toda essa preocupação me deixa em constante baixo astral e está influenciando outras áreas da minha vida. Mais do que nunca, eu me sinto só.

Luc Ferry diz que mais importante do que felicidade é a serenidade conquistada após vencermos o medo. “É o medo que nos torna egoístas e nos paralisa, que nos impede de sorrir e de pensar de forma inteligente, com liberdade.” O filósofo aponta que entre os três grandes medos da humanidade (timidez, fobias e medo da morte), o medo da morte é causado pela irreversibilidade da vida, aquilo que ele chama de “nunca mais”. “Tememos mais a morte de pessoas que amamos do que a nossa própria”, ele diz.

Me parece que estou tendo uma experiência de morte, antes mesmo dela acontecer. Imaginando o nunca mais, estou perdendo a minha serenidade, dando espaço para o medo e aumentando o meu desconforto sobre algo que eu só deveria sentir quando se tornasse real. Sei que de nada adianta eu me preocupar agora, só posso tentar me convencer de que estou fazendo tudo ao meu alcance para que ela fique bem. Por enquanto, tenho que aguardar uma semana para sair o resultado dos exames e, então, saber qual o passo seguinte para a cura.

Alguém igual

Sem conseguir dormir, Flavinha passeava pelo feed do Instagram às duas da madrugada, quando se deparou com um meme que lhe provocou uma gargalhada desgovernada. Queria compartilhar com alguém, mas quem? Ultimamente estava bastante afastada das amigas da faculdade, só trabalhava e voltava para casa. Sua mãe não iria entender. Seu namorado poderia levar para o lado pessoal. Ficou angustiada, não tinha para quem enviar a piada. Acabou mandando para uma colega de trabalho com quem se dava ultimamente e compartilhava o mesmo humor. Não eram próximas, mas ela riria.

Foi aí que a madrugada pareceu não ter fim. A moça pensou que volta e meia sentia-se sozinha, por mais que estivesse acompanhada. Na escola, quando todos os amigos gostavam das mesmas músicas e festas, ela não suportava. Odiava a bebida e as danças salientes. Achava uó. Na faculdade, quando todos gostavam das mesmas coisas, ela não gostava das pessoas. Não teve conexão instantânea com ninguém e achava que o grupo recém-formado forçava uma intimidade e alegria que não existiam. Não ia às festas. Agora, trabalhando, com colegas que ela considerava família, não tinha com quem conversar sobre os assuntos que lhe tiravam o sono.

Certa feita, um amigo com quem tinha acabado de ter uma discussão lhe disse “na sua vida, todo mundo vai te decepcionar. Você vai ter que aprender a seguir em frente”. Aquelas palavras voltavam à sua memória naquela noite, tinha brigado com a mãe pelo telefone, não queria continuar pensando nas palavras duras que acabou dizendo. Agora se sentia muito só. Ficou pensando que se encontrasse alguém como ela na rua, alguém com as mesmas preocupações, defeitos e qualidades, saberia lidar consigo mesma e não se sentiria sozinha. Essa mesma pessoa, por ser alguém que levava em consideração o bem-estar de quem está do lado, não seria egoísta nem leviana com seus sentimentos. Essas eram características que ela sabia que existiam em si, que admirava em si.

Ao mesmo tempo pensou que há dias em que nem ela mesma se aguenta. Tanta cobrança por perfeição, tanta exigência em sair tudo do jeito que ela acha que deve ser, que sufoca a si mesma. Pensou que estar do lado de alguém que não gosta de perder o controle exigiria muita paciência, e resolveu tentar não se importar mais com o que não podia controlar. Não se importaria tanto com a conversa com a mãe, por hora ia tentar tirar a cabeça daquele problema e dormir, no dia seguinte mandaria uma mensagem pedindo desculpa. À noite, quem sabe, tentaria falar por telefone novamente.

Ali, sozinha na madrugada, chegou à conclusão que não resolveria ter pessoa igual a si mesma para se fazer companhia. Ela sabia como era bom ter alguém com quem dividir um meme engraçado na internet, como era bom ter com quem desabafar quando alguma coisa não estava dando certo como imaginava, como era bom ter com quem rir enquanto esperava que os problemas se resolvessem porque ela já não podia fazer mais nada. Mas todo mundo um dia se frusta com todo mundo, às vezes a culpa seria dela mesma, e ela teria que aprender a viver com isso. Resoluta, foi dormir. Sabia que não tinha resolvido nada da própria vida, mas tinha resolvido a forma como encararia os próximos dias e essa confiança bastava.