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Léxico familiar em tempos de pandemia

Written by

Larissa Seixas

Sempre que vê uma coisa engraçada e fora do comum, minha mãe tem costume de dizer “que miséria!”. Aprendeu com uma amiga do ex-trabalho e passou para eu e minha irmã como se fosse uma gripe. Por impulso, a gente repete as mesmas palavras fora do ambiente familiar e a exclamação divertida causa estranheza por estar associada a uma palavra tão triste. Quem não tem o costume, só depois entende que é para rir.

Comecei a prestar atenção nessas palavras que só tem significado para meu grupo íntimo quando terminei a leitura de Léxico Familiar de Natalia Ginzburg (que li para o clube da pós de escrita).

Percebi que é assim mesmo. Nos pequenos núcleos que podemos chamar de famílias temos um vocabulário próprio com idiossincrasias e léxico que faz sentido apenas quando falado entre si – amigos, familiares, colegas de trabalho, etc.

No livro, também estranhamos os termos usados pelos Levi até que nos familiarizamos. Um exemplo que me fez rir foi o termo “surge um novo astro” usado como ironia pelo pai de Natalia para falar de um amigo recém-chegado à família. Quando entendemos essa “piada interna” sem que seja necessário explicação, nos sentimos também participantes daquela família.

Saudades da “gaiva”

Antes da pandemia, quando eu ainda ia trabalhar na agência, eu e meus amigos de trabalho (publicitários) tínhamos também um léxico familiar. Por exemplo: a palavra “gaiva”, que eu nunca tinha ouvido em nenhum outro lugar, era usada para descrever uma tirada, ideia ou mentira que dê força a um argumento de venda. Mas não usávamos ela apenas para falar dos projetos correntes, chamávamos de gaiva também quando alguém dava uma desculpa para pular o almoço de sexta-feira.

Agora, com a pandemia, a “gaiva” caiu em desuso e se sustenta só nas conversas de Whatsapp. Triste fim desse vocábulo tão promissor.

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