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Braile, Motus e NASA

Jovens de Salvador revelam potencial criativo e metas audaciosas que vão além da fronteira nacional

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Foto: Rômulo Portela

Criatividade não tem hora. Uma prova dessa afirmação aconteceu com Bruno Cavalcanti, Daniel Veiga e Lucas Costa Mendes, estudantes do curso de engenharia mecatrônica da Universidade Salvador (Unifacs). Foi durante o intervalo, quando faziam o lanche na cantina, que desenvolveram o que seria a impressora em Braile. O motivo era criar algo barato e que rendesse boas notas. O resultado foi além.

O trio de estudantes usou uma impressora jato de tinta sucateada e R$ 300 para adaptar a máquina e conseguir imprimir o sistema de leitura com o tato para cegos, inventado pelo francês Louis Braille no ano de 1827, em Paris. No mercado internacional, uma similar custa cerca de 2.600 euros. O projeto chamou a atenção dos professores e foi reconhecido nacionalmente por meio do prêmio Desafio Brasil 2010 (etapa regional) e Idea to Product 2010, da Fundação Getúlio Vargas.

A impressora, então, foi o despertar dos estudantes baianos para o potencial que tinham para criar produtos que auxiliem as pessoas. Daniel, 22 anos, e Bruno, 26, deram sequência em outro projeto. Desta vez, com a participação de Bruno Soares, 22 anos, criaram uma palmilha batizada de Motus. Ela permite o movimento das pernas de pessoas que sofrem de hemiplegia, uma paralisa de alguma parte do corpo provocada, em geral, por doenças cerebrais focais, em especial uma hemorragia cerebral.

A Motus é uma central de processamento de dados ligada ao músculo por meio de eletrodos e acionada por sensores que detectam as características do passo a ser dado após a retirada do calcanhar do chão. A ideia partiu de Daniel motivado a ajudar o irmão, que fazia sessões de fisioterapia, após uma crise de AVC. O projeto também foi vencedor e conquistou o Ideias Inovadoras 2011. Com o prêmio, Daniel foi convidado a participar do 55º encontro anual da Clinton Global Initiative University, promovido pela Fundação Bill Clinton, nos Estados Unidos. O evento abriu portas para a empresa Vitae, formada pelos três estudantes, que deu início a parcerias com organizações norte-americanas.

Porém a realidade dos universitários ainda é parecida com a de boa parte dos cientistas no Brasil. Eles reclamam da falta de investimento nacional e da burocracia que acompanha os editais de subvenção. Para Daniel, é “decepcionante ter que sair do país para ser reconhecido. Em outra nação, apesar das melhores condições de vida, você sempre será um estrangeiro, na terra de outro povo e longe de sua família”.

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Foto: Divulgação

De malas prontas para a Nasa

Sair do país foi o caminho encontrado pelo baiano Carlos Andrade Viana Silva, 22 anos, estudante de ciências da computação da Ufba, para trilhar uma carreira de sucesso. Após conseguir vaga no Stevens Institute of Technology, de Hobboken, no estado de New Jersey, Estados Unidos, por meio do programa Ciências sem Fronteiras, ele planejou e entrou em uma pesquisa voluntária de dois meses na Agência Espacial Americana (Nasa). Sem passar por nenhum processo seletivo, o que contou para que Carlos conseguisse a vaga foi uma estratégia bem planejada. “A engenharia final foi ter sabido encontrar os pesquisadores dentro da Nasa que tinham a mesma área de pesquisa que eu e, entre eles, achar um mentor inativo dentro do grupo. Então, eu não mandei um e-mail em busca de estágio, mas sim de um mentor”, explica.

Foi dessa forma que conheceu a pesquisadora com quem desenvolve um projeto no Centro de Pesquisas Ames. Antes de conversar com ela, já sabia quais particularidades do seu currículo deveria exaltar e como fazer a abordagem. Carlos hoje faz parte de um grupo que realiza pesquisas em conjunto com as universidades do Havaí e Drexel, além do capítulo brasileiro que criou para a Association for Computing Machinery – a única representação dessa sociedade em todo o país. O professor Eduardo Almeida, coordenador do mestrado de ciências da computação da Ufba e orientador de Carlos, vê com naturalidade e alegria a conquista do aluno. Para Almeida, o estágio da Nasa comprova o talento e dedicação dele.

“Eu quero passar o que consegui aprender a outros estudantes brasileiros e dar a mesma oportunidade que tive a eles. É bom ter esse tipo de conquista pessoal, muito maior é quando você, como orientador, consegue ver o crescimento de alguém que você ensinou”, projeta Carlos Andrade.

*Matéria publicada originalmente na Revista [B+]

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