Contos

Volta pra mim

– Claaaara! Claaara!

A essa hora da madrugada o bairro inteiro já estava dormindo e apenas uma janela remanescia com a luz acesa, e não era a de Clara, era a de outro quarto na casa ao lado. Mas Luiz não se importava. Ele havia tentado falar com Clara a noite toda sem nenhum sucesso, agora se encontrava na rua dos Araçás, num bairro residencial de casas, às três da manhã gritando o nome da moça. O breu da rua era evitado por aquela única janela e por um poste a quinze metros de distância, mas ninguém se importava.

– Clara, volta pra mim! — Ele insistia para a janela fechada do segundo andar de uma casa alta e bonita, com um muro alto e cheio de plantas na sua frente.

Insatisfeito, resolveu ligar mais uma vez e o som do celular dela ressoou à distância. Ele reconheceria aquela música em qualquer lugar, em meio a qualquer barulho, quanto mais no silêncio em que ele se encontrava. Agora tinha certeza de que Clara sabia que ele estava ligando e não se importava.

– Clara, por que você não me atende? — Deu um grito meio abafado, inconformado com a situação, mas outra vez nada. Sua voz sumiu e Luiz começou a chorar.

Abriu um berreiro como se tivesse dois anos de idade. A garota por quem havia sido (e ainda era) apaixonado por tanto tempo, aquela com quem perdeu a virgindade e com quem fez planos de viagem volta ao mundo não falava com ele há duas semanas, e agora o evitava. Se ele havia feito algo errado, já não se lembrava, ela tinha que vir pelo menos enxotar ele dali e dar alguma satisfação. Era preciso continuar.

Mas a raiva pelo gelo de muitos dias e que o tinha feito beber por toda noite, se dissolveu em lágrimas e agora ele sentia um grande desespero. Não sabia mais o que fazer, para onde ir, será que deveria dormir ali? Ela passaria por ele pela manhã? Não havia o que fazer se voltasse para casa. Para que voltar a viver esses dias de rejeição se ela não estaria com ele para deixar tudo mais fácil? Por um segundo, achou que ela ouvia seus pensamentos e dava uma risada.

– Clara, eu ainda estou aqui! — Berrou com todas as forças que lhe restaram. — E vou ficar aqui até você voltar para mim!

Parece que essa foi a gota d’água porque de uma hora para a outra alguns vizinhos resolveram intervir. Luzes nas casas vinhas se acenderam e era possível ouvir alguns gritos de reclamação.

– Vai dormir, babaca! – Luiz ouviu de uma casa azul do outro lado da rua. Enquanto o vizinho da janela que antes estava acesa apareceu na sacada e gritou em sua direção:

– Clara viajou!

Os cachorros da vizinhança também resolveram se manifestar, os gatos começaram a miar e, se não estivesse tão grogue Luiz podia jurar que ouvia um galo. Mas nenhum sinal de vida vinha da casa de Clara.

Agora ele estava pequeno, franzino, encolhido no canto do passeio, ainda com uma lata de cerveja na mão e o celular na outra. Queria desaparecer, se arrependeu do show que estava dando e agora morria de vergonha. Sua casa com o cheiro da rejeição que carregava em si, por alguns instantes lhe pareceu uma ideia melhor do que a rua pública.

Olhou mais uma vez para a janela dela, analisou se pular o muro cheio de plantas valeria a pena, mas tinha certeza que se tentasse sairia dali sem um braço ou uma perna. Olhou ao seu redor, o vizinho da casa ao lado ainda estava na sacada. Outras luzes agora também acendiam nas casas, mas da janela do segundo andar da casa da frente não vinha nenhuma comunicação. Será que ela havia esquecido o celular? Onde estavam os pais dela que não vinham consolar ele? Será que aquela dor no peito que vinha sentindo há dias iria passar algum dia?

Jogou a lata de cerveja na rua e foi andando rumo ao ponto de ônibus, para voltar para casa. Sua vergonha o arrastou dali.

Enquanto atrás da janela, dentre as persianas, Clara observava seus passos sob a luz do poste. Ele agora iria embora e o seu coração podia se acalmar. Pensou que tinha sido bom que seus pais tinham viajado nesse fim de semana. Amanhã teria que encontrar os vizinhos curiosos e fingir que nada tinha acontecido, diria que não estava ali. Acabou.

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