Paciência

Num hospital de atendimento de emergência ortopédica, ainda cedo pela manhã, havia alguns senhores e senhoras de idade, um menino com o braço quebrado e uma moça acompanhada do seu pai. A espera por atendimento na recepção era de mais ou menos uma hora. As pessoas chegavam, entregavam a carteira do plano de saúde e a identidade, sentavam-se para aguardar serem chamadas e preencher uma ficha, para então aguardar pelo atendimento.

A moça, Marina, estava ali com dor na coluna lombar que aparentemente surgiu do nada, mas já era velha conhecida. Ele teve um episódio de crise aos vinte e poucos anos que agora, aos quase trinta, parecia que ia se repetir. Tentou normalizar as costas com remédios que já tinha tomado antes, mas não sabia qual a quantidade de cada medicação, e depois de alguns dias sentindo dor sem melhora resolveu se consultar.

Conseguiu que o pai a levasse em uma clínica especializada, porque o marido estava preocupado demais com o que as pessoas do trabalho iam pensar dele “filar” o horário para acompanhá-la no médico. O pai que morava em outra cidade tinha uma visita programada para o dia e se ofereceu para levar a filha que até o momento iria sozinha.

Marina pensou a sorte que tinha de ter sempre o pai por perto, mesmo nos episódios de crise de coluna e labirintite anteriores, ele sempre foi a pessoa que esteve do seu lado em atendimentos médicos.

Quando foi chamada, ela entrou sozinha. O setor de atendimento nada mais era do que um corredor com 12 biombos forjando paredes que dividiam salas. Seguiu para a sala 8, como tinha sido direcionada. Levou consigo seus remédios automedicados e aguardou o médico terminar de atender o paciente da sala ao lado. No “consultório” havia uma maca com aspecto frágil, de que qualquer pessoa mais pesada pudesse a derrubar, uma cadeira sem braços troncha e uma mesa pequena com um computador. Sentou-se na cadeira troncha porque tinha encosto, ficar em pé piorava a dor nas costas.

O médico entrou na sala e Marina achou esquisito porque a voz que ela estava ouvindo atendendo o paciente anterior era de alguém bem mais velho. “Oi, tudo bem? Eu vou pedir que você se mude para a cama”, ele disse. “Eu só sentei aqui por causa da dor nas costas”, ela explicou enquanto saía da cadeira em direção à maca.

“Estou sentindo dor na lombar. Faço pilates e funcional mas me machuquei numa semana em que estava parada, não sei como. Talvez tenha sido a cama da casa de meus pais. Já estou tomando um anti-inflamatório e esse relaxante muscular, e eu trouxe aqui um spray que minha mãe me deu pra passar”.

O médico ficou confuso e irritado, ela era mais um desses pacientes que chegam medicados. Observou bem a moça que apesar dos olhos cansados e da coluna torta não deveria ter mais de 25 anos. Conferiu pela primeira vez a ficha e viu que tinha 29. “Você tem alguma alergia a medicação?”

“Muitas. Anotei aqui para te dizer”, e passou um pedaço de papel com cinco substâncias escritas.

“Bom, pelo o que você está me descrevendo, parece que sofreu algum impacto” e como você tem alergia a um bocado de anti-inflamatório, vou te passar uma injeção de corticoide e um exame de raio-x pra gente fazer agora e ver se não tem nada de errado.”Mas eu não vou ter nenhum piripaque aqui não, né? E se eu tiver alguma alergia à injeção? Você sabe.””Não deve, mesmo porque esse medicamento é usado justamente no tratamento de alergias. E caso você tenha, já está num hospital” – ele acrescentou dando uma risadinha nervosa.

Ela fez que sim com a cabeça. Como costumava tomar corticoide para curar as alergias e percebeu logo depois que tinha falado besteira por excesso de precaução. Lembrou que a própria mãe tinha falado a mesma coisa para outro médico sobre outra substância em outro momento de internação da garota, ela tinha medo que Marina tivesse algum choque anafilático por conta de uma injeção. Pensou que não devia estar sozinha no atendimento.

Então o médico foi saindo da sala rumo à impressora para fazer as prescrições, e minutos depois chegou um enfermeiro. Ele conferiu com a garota o nome e a substância da injeção e começou a preparar a aplicação. Marina foi ficando nervosa porque estava sozinha, e quando o enfermeiro começou a fechar a cortina da sala para aplicar o remédio nas nádegas, seu pai apareceu.

“Que demora. Fiquei preocupado.”

Ele ficou do lado de fora aguardando o procedimento, mas Marina preferiria que ele tivesse entrado. Agora ela se via com meia bunda de fora, sozinha com um estranho numa sala fechada. A situação era bastante desconfortável e ela preferiu ficar em pé “por causa da dor nas costas”. Ela achou que o enfermeiro tinha se animado com a situação, mas fez questão de mostrar que para ela aquilo tudo era bastante desconfortável — só queria que acabasse logo.

Terminado o procedimento, Marina pegou a ficha e voltou com o pai para a sala de espera. Aguardou poucos minutos até ser chamada para fazer o raio-x e logo foi parar em outra sala de atendimento, dessa vez com paredes de verdade, uma cama de metal e a máquina para radiografia dos ossos. Com roupa (exceto o sutiã), deitou no lugar certo, prendeu a respiração. Virou de lado, predeu a respiração e pronto. Pegou a ficha e voltou para a recepção, para aguardar o resultado e prognóstico do médico.

Agora a recepção estava lotada de idosos, não tinha uma só cadeira ou sofá para sentar e aguardar. Teve que sentar em um sofá tenebroso que encontrou no corredor, que afundava e forçava ela a se equilibrar, deixando a coluna doendo. Quinze minutos de espera e ela foi chamada novamente. Agora a injeção já fazia efeito e ela sentia alguma melhora apesar do assento. Atravessou o o mar de gente e voltou para o box 8. Aguardou o médico aparecer sentada na maca.

Com uma cara melhor, ele se sentou na cadeira e começou a explicar. “Então, Marina, não tem nada de errado com a sua coluna. Aqui nesse exame, ela apareceu um pouco retificada mas imagino que seja pelo espasmo que você estava sentindo. Você tem algum caso de problema de coluna na família?”

“Não que me lembre”, respondeu.

“Pois bem, eu não vou mexer em time que está ganhando. Como você tem muitas alergias e anti-inflamatórios, vou prescrever os mesmos remédios que trouxe. Vou te dar também um pedido de ultrassom, caso você continue sentindo a dor, faça e marque uma consulta. Falta só o seu atestado. Vamos ali imprimir tudo”.

No corredor, ao lado da impressora, ele explicou a posologia dos medicamentos e entregou os papéis para a moça que já estava com melhor humor porque a dor aliviava. Ela fez “obrigada” e deu um aceno de cabeça. Era intencional, não eram palavras sem sentindo. Naquele lugar esquisito, naquela situação ruim, ela agradeceu a ele por ter tido paciência e a Deus por ter conseguido sair dali atendida e medicada em duas horas.

“SÓ SEREMOS FELIZES SE TENTARMOS FAZER OS OUTROS FELIZES TAMBÉM”

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Ana Lins é jornalista e trabalha com recrutamento de grupos de dinâmica para empresas de pesquisa de mercado. Mas desde 1995 assumiu uma outra atividade, a qual se dedica com muito empenho: o voluntariado. Atualmente, Ana lê poesias para crianças no hospital Instituto Fernandes Figueira, às terças e quartas-feiras, todas as semanas.

Ela começou no hospital após um convite de uma médica amiga e, na época, a nova atividade causou certo ciúme entre seus filhos, que faziam coro no versinho: “Refazer é a minha vida”. Uma brincadeira com o nome do projeto em que trabalhava. Mesmo assim Ana continuou.

Após 16 anos de doação aos jovens no IFF, a mãe coruja passou a ser fonte de admiração não só para seus três filhos e marido, como também para as mães e crianças que recebem sua ajuda no hospital. Uma inspiração para quem busca a felicidade!

Como você conheceu o projeto do Instituto Fernandes Figueira?

Ana Lins: Desde 1995 comecei a trabalhar como voluntária numa ONG chamadaRefazer, ligada ao Hospital Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz. Cheguei a ser presidente da ONG e a população que atendíamos era do hospital. No final de 2003 me engajei no projeto Biblioteca Viva e logo após me desliguei da Refazer.

Antes de fazer parte do projeto Biblioteca Viva eu participei também, dentro do mesmo hospital, do projeto Novos Caminhos, de geração informal de renda para pessoas que têm filhos com doenças severas e que não têm condição de trabalho. Elas aprendiam algum ofício que pudesse ser feito enquanto aguardavam a fisioterapia ou a consulta da criança.

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O hospital também possui uma sala para atividades infantis/Foto: Acervo pessoal

Há quanto tempo você participa do projeto e qual a sua área de atuação?

No projeto Biblioteca Viva eu trabalho em várias áreas: leio para bebês na UTI neonatal uma vez por semana; leio para crianças que aguardam suas consultas no ambulatório de neurologia; participo da coordenação do projeto e, por iniciativa minha, faço um brechó social de três em três meses, com a renda revertida para o projeto.

Assim, sou uma das principais mantenedoras do BV, que vive de doações. Sou também voluntária acompanhante: vou à enfermaria pediátrica e fico brincando, tomo o papel de uma tia carinhosa para alguma criança que tenha uma visitação pouco frequente da família.

Mas não é só dos brechós que você consegue as doações…

Com o network que fiz sendo presidente da Refazer por dois anos, também consigo captar doações de livros, roupas, equipamentos hospitalares, carrinhos de bebê e até padrinhos para crianças. Estou sempre chegando no hospital carregada. Acho que as pessoas sabem a causa importante e séria pela qual batalhamos e depositam confiança no meu trabalho.

Qual a motivação que faz você ter vontade de visitar essas crianças?

Sou uma voluntária presente e esse contato com crianças com doenças difíceis e, na maioria das vezes, crônicas me torna uma pessoa feliz, bem-humorada, de bem com a vida. Porque eu tenho a certeza de que eu dou o meu melhor para elas e a resposta que eu tenho é efetiva, ali, na hora, o sorriso, o olhar, o sonho, a troca de energia. Saio sempre muito melhor do que cheguei, mesmo que seja um dia lidando com alguma criança com doença muito pesada e que me emocione muito.

Você acompanha o desenvolvimento delas de perto? Quando elas deixam de participar do projeto?

O projeto Biblioteca Viva tem voluntários que leem em todas as unidades do hospital – um hospital referência materno-infantil. Então, enquanto elas frequentam o hospital têm voluntários lendo. E elas só são desligadas de lá depois que fazem 18 anos.

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As crianças só deixam de ser acompanhadas a partir dos 18 anos de idade/Foto: Acervo pessoal

Há alguma pesquisa que mostre que a leitura (ou a companhia) ajuda no desenvolvimento dessas crianças?

Já está sendo comprovado e minha coordenadora, Madalena de Oliveira, vem apresentando trabalhos que mostram a importância da leitura desde o início, na UTI neonatal. Muitas vezes reencontro mães nos corredores do hospital em que li para seus bebês prematuros e elas me dão o testemunho de que são crianças que gostam de livros e de histórias.

Além disso, hospital não é lugar para criança. Lugar de criança é em casa e os livros que lemos para elas dão a possibilidade desse sonho. Só isso, já é tudo. Crianças com procedimentos severos, muitas vezes dependentes de oxigênio já desde cedo… Você imagina a importância do trabalho de nós, que somos atualmente, 75 voluntários.

Você indicaria um trabalho voluntário para outras pessoas? Por quê?

Indico porque acho que não tem saída: estamos todos no mesmo barco e só seremos felizes se tentarmos fazer os outros felizes também. No caso do hospital que trabalho, a pessoa tem que se sentir confortável dentro de um hospital, gostar de criança e de livros. Basta isso.

Qual o maior aprendizado que você já teve nesses tempos de trabalho?

Eu aprendi a ser uma pessoa que valoriza o outro, que presta atenção no outro, sem preconceitos, apostando que o outro é capaz. E sou uma pessoa feliz.

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Ana acredita que o hábito da leitura traz consigo a vontade de sonhar/Foto: Acervo pessoal

*Matéria publicada originalmente no portal EcoDesenvolvimento.org