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Jornalismo e mediação da notícia na era digital

Durante os protestos de 2013 contra o aumento das passagens de ônibus, o cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, da TV Bandeirantes, foi atingido por um rojão na cabeça e morreu quatro dias depois de morte cerebral. A fatalidade foi a gota d’água para que a comunidade jornalística iniciasse uma série de discussões acerca da violência contra os profissionais da imprensa, visto que nos próprios protestos os repórteres e cinegrafistas eram hostilizados muitas vezes.

Um dos repórteres que cobriu as manifestações pela TV Bandeirantes, Fábio Pannuzio, disse acreditar que a motivação para essa descrença e ataque ao jornalismo era originada pelos próprios jornalistas que ficam “repetindo na internet que a impressa é venal, é golpista”.

Essa associação de episódios foi utilizada pelos autores Tacyane Arce, Geane Alzamora e Tiago Barcelos Pereira Salgado para abordar o abalo da função mediadora do jornalismo, que começou a tomar forma em virtude das tenções impostas pelo processo de convergência digital. Com base na Teoria Ator-Rede, os autores explicam o ato de mediar como uma cadeia de transformações formada por atores humanos e não-humanos que agem e são levados a agir, a traduzir e a transformar. E, por isso mesmo, questionam até que ponto é possível defender a superioridade da mediação jornalística sobre as demais na circulação de informações na rede.

Para os autores, a mediação jornalística não é uma operação purificadora da notícia – que eles trazem como perspectiva dominante dos estudos do jornalismo – mas como operação de tradução que é coletiva e, portanto, híbrida.

Tal purificação da notícia é exemplificada no artigo por meio de editoriais do Jornal Nacional e da Folha, que defendiam as atuações de seus veículos durante os protestos como um bem para a sociedade e a manutenção da democracia. No entanto, alguns internautas que se posicionaram contra tais editoriais ganharam relevância na rede. O humorista Rafuko, por exemplo, criou uma paródia do editorial feito por William Bonner, onde a “Patrícia Correta” questiona o posicionamento da Globo frente às manifestações.

Para os autores, esse vídeo é um exemplo que evidencia a impossibilidade de se conceber mediação como mera ação intermediária entre dois pontos. Com sua personagem, Rafuko convoca à mediação coletiva as atitudes da emissora frente ao episódio das manifestações. Com 873 comentários postados na página de Rafuko, 299 tweets e 7,3 mil recomendações no Facebook, o editorial foi execrado nas redes sociais online.

Com essa amostra, os autores reafirmam que o papel de participante isento do jogo informacional não é suficiente para fechar a caixa preta da mediação jornalística. Mais para contrvérsia que para estabilização, a mediação jornalística não é uma ponte no espaço neutro entre a realidade e o cidadão, mas situa-se adiante, em circulação.


Considerações da autora:

As controvérsias e insatisfações com a atividade jornalística promovidas por meios de comunicação não surgiram com a internet. Desde a existência dos primeiros folhetins impressos, os detentores da mídia são minoria na sociedade – no Brasil, dados de 2008 mostram que cerca de 1.400 veículos nacionais são filiados a apenas 5 grupos de comunicação: Globo, Band, Record, SBT e Rede TV!. E sempre houve alguém para discordar, mudar de canal, deixar de comprar jornais e até criar fanzines para divulgar sua própria opinião.

A atividade jornalística depende do posicionamento da sociedade para se manter, seja contra ou a favor a ela. Não é porque o posicionamento de um meio de comunicação é questionado que a atividade jornalística ali não se suporta mais, justamente o contrário. Quem estiver produzindo informação e conhecimento está participando da atividade jornalística, fomentando a discussão e ainda correndo o risco de ser acoplado ao sistema das redes (caso agrade).

Uma só emissora não possui o poder da verdade só porque é a única que chega à maior parte da população, não é isso que o jornalismo prega. Para a disseminação da informação é muito importante a existência de meios independentes, de emissores que tomem partido da população, que tenham consciência do que divulgam. A concentração de veículos de comunicação nas mãos de poucos conspira contra o jornalismo de qualidade e é uma séria ameaça ao pluralismo de opinião.


NOTA:

Sobre o artigo Mediar, verbo defectivo: Contribuições da Teoria Ator-Rede para a conjugação da mediação jornalística.

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