Crônicas

SENHOR ASH E A MELHOR MEMÓRIA DE LONDRES

Faz quase dois anos. Era férias do curso de mestrado e a gente tinha juntado uma grana para conhecer Londres, nossa primeira viagem para outro país do intercâmbio. Planejamos os lugares que íamos conhecer, o hotel em que íamos ficar hospedados, o percurso do aeroporto a ele. Mas não deu certo. Como eu fui aprender mais a frente, a gente tem que quebrar a cara um pouco antes de fazer as coisas acontecerem de verdade – para tudo na vida.

Chegamos no Stansted (que fica bem distante do centro) e pegamos um ônibus que nos levaria a Baker Street e depois um metrô que nos levaria a Wembley Station. Só que há duas Wembley Stations em Londres, e a do nosso hotel não era aquela do mapa. Mal tínhamos chegado e já estávamos perdidos. Não sabíamos como fazer para chegar no lugar certo, que descobriríamos depois estar a alguns quilômetros de distância.

Então, saltamos na Wembly Station e demos de cara com o estádio, lindo. Ele tinha acabado de ser reformado e usado nas Olimpíadas, e serviu de consolo para o desespero de estar perdido no meio de tanta gente. Depois de tirarmos algumas fotos, seguimos adiante rumo a alguém que soubesse onde a gente estava e onde tínhamos que estar.

Depois de andar uns 15 minutos achamos um mercadinho, parecia seguro perguntar. Vinícius falou com o vendedor, mas foi um cliente que respondeu: ele morava perto da estação que a gente estava procurando e podia nos dar carona até lá.

– Aonde!! Eu não vou entrar de carona nesse carro nem com a zorra. Não conheço esse cara! Quem é ele pra ficar oferecendo carona assim? – A criação meio neurótica da minha mãe tinha dado certo, “não converse nem aceite carona de estranhos”. Muito menos do outro lado do mundo. Eu estava apavorada.

Mas ele foi insistente.

Era um paquistanês de mais ou menos 50 anos. Estava acompanhado da irmã, num carrinho compacto duas portas. O nome dele era Ash e parecia ter boas intenções.

– Minha filha, eu moro nessa cidade há 30 anos. Vim aqui no mercado com minha irmã. Olhe o meu carro, eu não vou fazer nada com vocês.

Foi uma boa observação, aquele carrinho não corria muito. Nem a irmã dele parecia fazer parte de nenhum grupo de contrabando de gente. Mesmo apavorada, eu aceitei. Fui segurando a mão de Vinícius o caminho todo, e puxando papo para conhecer melhor aquele senhor que se mostrou muito prestativo, mesmo sem deixar de desconfiar por nem um segundo.

Ele foi o primeiro da família a ir morar em Londres, foi estudar. Depois, os outros irmãos foram para a casa dele também para fazer a vida. A cidade já era muito grande desde quando ele tinha chegado ali. “As vezes assusta”, ele comentou, e eu assenti.

Quando chegamos na sua casa foi uma mistura de alívio e alegria. Estávamos a salvo e mais perto do hotel, e o anfitrião fazia questão que caso acontecesse alguma coisa fóssemos na casa dele pedir ajuda, ele estaria nos esperando.

– Agora desçam essa ladeira e virem à direita, o hotel é logo ali. Não posso oferecer um chá porque já estou de saída, só vim trazer minha irmã em casa.

Como eu queria abraçar senhor Ash. Ele se importava com a gente! Eu estava feliz de ter chegado são e salva, poder ligar pra minha mãe e dizer, “tá tudo bem, foi só um susto”. Mas minha emoção se resumiu a um aperto de mão caloroso, e seguimos caminho.

Deu tudo certo. Chegamos no hotel e catamos todos os mapas disponíveis. De agora em diante hotel, só próximo do centro, e pegar mapas impressos é a primeira coisa que se faz quando chega numa nova cidade. Aí, voltamos a Baker Street para conhecer mais sobre Sherlock Holmes.

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