Quase trinta

Agora que chegava aos trinta pensou que nunca esteve pior, pelo menos no que diz respeito ao físico. Tinha parado de praticar academia há seis meses e restavam apenas as caminhadas às seis horas da manhã, três vezes na semana, sozinha, enquanto todos da casa dormiam. A disposição gerava alguma admiração entre os familiares mas não lhe rendia frutos. Não conseguiu reduzir nem um centímetro sequer do corpo e, apesar da insatisfação, continuava com a rotina porque pior sem ela.

Um triste dia, cansada de imaginar que em algum momento da juventude tivera um corpo magro e que nunca mais voltaria a ele, resolveu fazer algo a respeito e se inscrever em uma atividade de luta — algo que queria experimentar desde quando era adolescente.

Na hora marcada da aula, terça-feira às 20h, lá estava ela completamente não à vontade num ambiente que conseguia achar defeito até na catraca de acesso. Nunca gostou de academias, pelo contrário, tinha grande preconceito. Essa era a quarta vez que tentava uma inscrição sabendo que não duraria mais do que dois meses. O ambiente de pessoas com corpos perfeitos a deixava constrangida por ser tão conhecedora das próprias imperfeições.

Tinha os ombros mais largos do que os quadris e era robusta, de grande estrutura. Fosse uma pessoa magra seria mais apresentável e delicada, com ombros e braços finos, como as moças que acompanhava nas redes sociais. Gostava de se imaginar em roupas que não caiam bem no seu perfil e aquilo trazia mais tristeza. Imaginava escolher a roupa que iria para academia e não ficar adequada quanto às alunas que tinham a bunda mirando o céu. Sabia que nunca se sentiria à vontade ali, muito menos sozinha como estava.

Após o grande ato de coragem de participar da primeira aula, três semanas se seguiram e ela continuou frequentando. Criou até uma rotina para poder esperar a aula de forma agradável e que não a fizesse desistir. Chegaria direto do trabalho quarenta e cinco minutos antes, tempo que usaria para colocar a leitura em dia. Aquilo era razão suficiente para continuar, pelo menos enquanto tivesse bons livros.

Na segunda semana já notou seu corpo mais firme e desinchado. Seu humor melhorou consideravelmente, chegou a achar que dentro de um mês estaria magra. Mas isso não aconteceu. Ela percebeu que agora, com os exercícios, tinha passado a se dar o luxo de comer mais bobagens na rua. Como gostava muito de comer, os novos exercícios diminuíam a culpa. E logo entendeu que nunca teria o corpo de uma das moças do Instagram.

Resolveu então olhar pelo lado positivo. Ela nunca foi magra, assim como se vê nas redes sociais. Os exercícios, apesar de acompanhados de uma grande dose de comida, não mudariam seu corpo mas ajudavam a se sentir melhor consigo mesma. Entender isso foi o primeiro passo para aceitar o que ela era e tentar ser feliz. A primeira medida que tomou foi procurar uma aula de pilates, pois se tinha que sofrer com alguma atividade física melhor que sofresse com algo que se sentia bem.

Na semana seguinte já estava em novo horário, pela manhã, quando se sentia mais disposta para fazer exercícios, dividindo a sala de pilates apenas com a professora. Estava com um bom sentimento sobre toda aquela mudança, Achou que estava a caminho da vida que queria ter.

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