Contos

O desespero é contagioso

Quem nunca foi levado ao desespero pelo contágio de outra pessoa não sabe o que é arrepio na espinha. Porque uma coisa é você se sentir desesperado e ter alguém que lhe conforte, outra completamente diferente é você ser levado ao desespero pela pessoa que te serve de base emocional. Frequentemente esse contágio se dá entre casais, amigos ou parentes que dividem muitos momentos juntos. Invariavelmente, a pessoa que é a base emocional da relação não consegue segurar o desespero o tempo todo e a contaminação é certa. Se não houver alguém que tome as rédeas da situação, todos estamos perdidos. Júlia e Pedro estavam juntos há três anos. Ele era enfermeiro e ela engenheira química. A amizade de poucos meses, durante a faculdade, se transformou em “algo mais sério” depois de dois anos, quando começaram a namorar. Agora, após cinco anos de relação, um já estava completamente adaptado ao outro de forma que o relacionamento era o melhor da vida de cada um, principalmente depois que eles entenderam a dinâmica do desentendimento: Júlia queria ter o controle de tudo e Pedro não queria controle nenhum. Volta e meia eles brigavam porque ela carregava sozinha as responsabilidades que faziam parte da relação. O que a levava a ponderar se valia mesmo a pena entrar num casamento com alguém que não resolvia nada e tudo postergava, evitava ou se esquecia. Mas Pedro também se questionava, como casar com alguém que não achava nada bom o suficiente? Mas eles se amavam profundamente, e nem as dúvidas eram capazes de os separar. Foi quando eles foram empurrados a dar o próximo passo que tudo mudou. Numa noite de celebração, Júlia tinha acabado de ser promovida e Pedro a tinha levado para jantar, os dois terminaram na cama adiando cada vez mais o término dos momentos de carinho e namoro, quando de repente o sêmen que estava ali na parte de reserva da camisinha sumiu. O alívio resultado das horas de prazer virou preocupação e desespero. Para onde ele teria ido? A camisinha não tinha estourado. A quantidade era considerável e agora não se via muita coisa. Meu Deus, pra onde? Pedro achava que tinha se espalhado dentro do saco de látex, Júlia não tinha tanta certeza assim, podia ter vazado e ninguém percebeu ou pior, estar dentro dela – de alguma forma. Não é possível, eu coloquei água, veja, não está furada. Ela não conseguiu dormir. Começou a fazer as contas e se deu conta que há dois dias estava saindo do período fértil, e se o óvulo ainda estivesse por ali e houvesse a fecundação. Meu Deus, eu não posso ficar grávida. Eu não posso perder meu emprego, não depois de ter um filho. Quando a licença maternidade sair vão colocar outra pessoa no meu lugar e eu não vou ter a preferência. Eles vão me demitir como fizeram com Rose. Eu não posso engravidar. Agora os dois estavam sentados na cama, lado a lado. E o desespero de Júlia fazia Pedro ficar perdido. E se ela engravidasse? Ele não tinha emprego para sustentar nem a si mesmo, quanto mais uma criança. Não era possível, nada tinha vazado, só tinha se espalhado. Ele viu que a camisinha não estava partida, tinha certeza. Tratou de acalmá-la e colocar panos quentes na situação. Venha, vamos ver um pouco de TV e dormir. Mas ela não dormiu, nem o deixou dormir. Quase duas horas depois, ela pôs em dúvida tudo o que o namorado já dava por resolvido e estava tão angustiada e nervosa que o forçou a tomar uma decisão, e tinha que ser rápido: sair para comprar uma pílula do dia seguinte. Os dois foram até a farmácia 24 horas mais próxima em silêncio. Lá compraram a droga e Júlia sentiu um arrepio na espinha. Aquilo era uma bomba de hormônios e causava diversos efeitos colaterais, inclusive má formação de feto. A garota voltou para casa repensando tudo. Na melhor das hipóteses, a camisinha fez o seu trabalho e ela não precisava tomar aquilo. Mas a insegurança não deixou que mudasse de ideia e logo quando chegou tomou o comprimido único. Não sentia alívio, mas sabia que eles haviam feito tudo o que estava ao seu alcance para remediar a situação. Do seu lado e com a bula da pílula na mão, era a vez de Pedro repensar tudo o que a namorada havia lhe falado sobre o emprego e a insegurança de ser demitida. Odiava quando não se sentia capaz de atender às expectativas dela, se sentia menor, pequeno, e isso acontecia com frequência. Ele sabia que por não ter um emprego contribuía com os medos de Júlia e se deu conta de que precisava fazer alguma coisa. Não só por ela, mas também para renovar suas expectativas. Queria se casar, ter uma casa, uma família, queria um futuro e da forma que estava não tinha condições de fazer nada. Prometeu a si mesmo que iria buscar qualquer trabalho, até mesmo de acompanhante de idosos, ele precisava. Os dois assim adormeceram, lado a lado, exaustos depois da crise, e com resoluções na cabeça.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *