A feminista que escreveu Americanah

Semana passada eu terminei de ler Americanah e fiquei encantada. Não era um livro que eu tinha comprado porque eu queria muito – eu ganhei de presente porque meu marido viu na lista dos livros lidos por Barack Obama em 2018 – mas logo nos primeiros capítulos foi uma história que me fez cair de amores. Para minha surpresa era um romance (!) e falava sobre a vida de uma moça nigeriana indo fazer faculdade nos Estados Unidos – vivendo um bocado no meio do caminho – e depois voltando para casa.

Que coisa mais linda! A vida de Ifemelu serve de base para Chimamanda Ngozi Adichie se aprofundar sobre questões raciais: como a sociedade americana trata os negros afrodescendentes e os africanos; O que significa ser uma pessoa negra nos Estados Unidos; O que significa ser uma mulher negra; O que significa ser uma imigrante de um país africano. Tudo com doses de humor, muito pensamento crítico e pitadas de romance. Eu dormia e acordava pensando nesse livro.

Lembro que a primeira vez que vi Chimamanda foi numa entrevista que Jorge Pontual tinha feito para divulgar Americanah no programa Milênio da Globo News. Mesmo pegando só um pedaço, fiquei admirada com a figura da escritora, bonita, inteligente, dona de si. A voz dela, voz de pessoa bem educada, me fez querer ficar ouvindo o que dizia por horas – trouxe aqui o vídeo, no fim do texto. Além desse livro, Chimamanda tem mais cinco – entre eles um manifesto pelo feminismo (Para Educar Crianças Feministas – Um Manifesto) e outro sobre uma guerra civil nigeriana (Meio sol amarelo) que também foi adaptado para o cinema.

Essa feminista maravilhosa é uma sensação na internet, desde dezembro de 2012 ela virou viral após dar uma palestra no TED – We should all be feminists – e parte do seu discurso acabou sendo citado na música Flawless de Beyoncé (!).

Nós ensinamos meninas a se esconderem, a se diminuírem. A gente diz “você pode ter ambição, mas não muito. Você pode ter sucesso, mas não tanto sucesso. De outra forma, você vai ameaçar os homens”. Porque eu sou mulher, esperam que eu queira me casar. Esperam que eu faça minhas escolhas sempre pensando que o casamento é o mais importante. Agora, casamento pode ser uma fonte de alegria, amor, suporte mútuo, mas porque a gente ensina as garotas a quererem casar e não ensina os garotos também? A gente cria garotas para ver umas as outras como competidoras mas não por trabalhos ou realizações, o que poderia ser uma coisa boa, mas por atenção dos homens. A gente ensina que garotas não podem ser seres sexuais como os homens são. Feminista: pessoa que acredita na igualdade política, social e econômica dos sexos.

Depois que assisti a todos esses vídeos eu percebi porque o livro me encantou logo no início. Chimamanda tem uma doçura ao falar sobre assuntos tão caros, uma forma sutil e verdadeira de abordagem. “O problema do gênero é que ele acaba determinando quem devemos ser, em vez de reconhecer quem somos.” Quer ideia mais doce do que pensar a construção da sociedade sob a visão dos interesses pessoais e não sob as expectativas de “o papel do homem” e “o da mulher”? Agora eu sei como quero criar meus filhos.


Histórias de amor moldam a gente

Na última edição da newsletter Women Who (que tem ótimas dicas de aperfeiçoamento profissional para mulheres) eu conheci a escritora inglesa Dolly Alderton e seu podcast Love Stories. A proposta da série de entrevistas é conversar com personalidades sobre como os relacionamentos que elas viveram moldaram suas vidas. Como eu adoro uma DR, eu achei o título do podcast bastante sugestivo e comecei logo a ouvir. O primeiro episódio foi com a atriz e amiga da entrevistadora Vanessa Kirby (a ~perfeita~ Margareth de The Crown, Netflix).

Nesse podcast, Vanessa fala muito sobre como a intimidade é um combustível para os relacionamentos; sobre como amizades, relações entre familiares, namoros e casamentos são construídos sob a base da confiança que advém da intimidade. Ela acredita que quando a intimidade entre duas pessoas se torna tão forte que elas se permitem confiar mesmo sabendo que o outro vai decepcionar em algum momento. E mesmo decepcionando, quando amor resultado dessa intimidade é maior do que a decepção, faz com que a pessoa fique e se mantenha na relação.

Mas Vanessa também pontua que para ser íntimo de alguém é preciso se conhecer intimamente, saber o que você é e o que você quer para a sua vida, até para encontrar outra pessoa que esteja de acordo com a sua busca. “Para estar ao lado de alguém que está de pé, você precisa estar de pé. Assim como para estar do lado de alguém que está sentado, você precisa estar sentado”, ela fala.

Eu achei essa conversa entre amigas muito bonita porque foi muito sincera e ressonou em coisas que eu também acredito. Enquanto ouvia fiquei pensando em quantas vezes eu buscava intimidade com pessoas que não estavam de acordo com o meu mundo e o quanto eu sofri por isso. Na escola, na faculdade, no trabalho. Eu buscava fazer amizades mas eu não me conectava com as pessoas. Muitas vezes porque eu não sabia o que estava procurando ou não sabia que ali não era o lugar de encontrar o que eu queria.

Ao mesmo tempo, pensando rapidamente na minha história de vida, em pelo menos três momentos eu encontrei pessoas com quem tive facilidade de criar intimidade e estão presentes em mim até hoje, mesmo que à distância. Uma grande amizade aconteceu na escola e eu a encontrei enquanto procurava constantemente em muitas outras pessoas que não eram o que eu buscava, o que me deu uma grande alegria de descoberta. O primeiro amor correspondido eu encontrei quando não estava mais a fim de procurar e resolvi dar uma chance a uma amizade que estava ao meu lado, o que hoje vejo foi muita sorte porque me deu a felicidade de um casamento. A mais recente amizade se deu com a minha dupla no trabalho, que virou família e já mudou de emprego quando encontrou outra oportunidade.

Todos esses encontros me decepcionaram de alguma forma, mas a intimidade e o amor de cada relação criaram elos que não me deixaram fugir e eu aprendi a lidar com as decepções para poder continuar. No episódio, Vanessa conta que também aprendeu a lidar com suas decepções encontrando força no autoconhecimento. “Ninguém pode te fazer sentir nada, apenas você pode decidir como se sentir”, ela explica, e eu concordo. Mas para mim, é preciso de uma dose de autoconfiança, para chegar nessa descoberta de que ninguém precisa do outro para ser feliz, precisa apenas de si mesmo. Acho que tem a ver com você se conhecer tanto a ponto de entender que não é aquela pessoa em especial que torna você ou o seu dia a dia mais feliz, é você mesmo.

No fim das contas você vive momentos de felicidade porque encontrou aquilo que buscava – e a vida é isso aí, uma eterna busca. Então, quando essa felicidade vai embora você tem que encontrar outros motivos… seja buscando o novo, quando se está só, ou buscando o equilíbrio, quando se está acompanhado.

É preciso estar atento ao Facebook

A notícia de que o Facebook quer unificar suas plataformas de mensagens instantâneas, divulgada por Zuckerberg na quarta-feira passada, me deixou um pouco preocupada. A empresa vai combinar os serviços do WhatsApp, do Instagram e do Facebook Messenger para que usuários possam enviar e receber mensagens por meio de qualquer uma das plataformas. A primeira coisa que me veio à cabeça quando li a notícia foi a lembrança das Eleições de 2018, quando o WhatsApp permitiu a proliferação de fazendas de notícias falsas que acabaram influenciando na votação.

Nós, usuários, estamos numa sinuca de bico. Se por um lado não queremos que o governos e agências de inteligência tenham acesso às nossas conversas, por outro temos que lidar com a desinformação tornando o nosso mundo mais ignorante e a nossa vida mais difícil. No Twitter, a diretora da Aos Fatos, Tai Nalon explicou a preocupação de quem trabalha contra a desinformação: “redes mais fechadas condensam mais falsidades, pois ajudam a esconder seus autores, da mesma maneira que integrar grupos menores e mais fechados tornam o debate menos plural”.

Além disso, o plano também envolve a expansão dos serviços de e-commerce e pagamentos da empresa, mas eles ainda não explicaram qual o papel do serviço de mensagens nesse grande sistema.

O Facebook corre

Numa entrevista para a Associated Press, a diretora de Estudos de Mídia da Universidade de Virgínia, Siva Vaidhyanathan explica que o objetivo de Zuckerberg é fazer com que as pessoas abandonem os competidores (e-mail, mensagens de texto ou o serviço de mensagens da Apple) para fazer tudo através de um produto Facebook. O objetivo é transformar o Facebook em um serviço como o chinês WeChat, que tem 1.1 bilhões de usuários ativos e é dono do mais popular serviço de pagamento on-line do mundo.

Parece que o Facebook forjou uma corrida para ver quem vai dominar a vida digital do planeta, ao mesmo tempo em que luta contra a competitividade e a regulamentação. The Guardian divulgou, inclusive, que a empresa está investindo pesado em lobby contra leis de privacidade e até jogando sujo com ameaças a políticos dos EUA, Canadá, Reino Unido e Brasil na tentativa de impedir a regulamentação.

Preocupada, a Comissão para Proteção de Dados da Irlanda está buscando detalhes sobre os próximos passos da empresa. Já que a sede europeia da empresa fica lá, a Irlanda é o país responsável pela fiscalização da rede na União Europeia. A ideia de maior integração entre Facebook, Instagram e WhatsApp é um rompimento do acordo da companhia com a UE na época em que a análise antitruste autorizou a compra do WhatsApp. É também, dependendo de como for implementado, uma ruptura da legislação de privacidade de Bruxelas. Esses acertos entre UE e Facebook podem moldar o mercado digital mundial e impactar diretamente em nossas vidas na forma como nos relacionamos com nossas famílias, amigos e empresas.

Como a gente fica nessa?

Como a resposta dos governos vem em passos de formiguinhas e as movimentações do Facebook correm contra o tempo pois buscam alcançar o controle do mercado mundial, os usuários são deixados à mercê da empresa. São os nossos dados e acessos que geram receita para o bolso de Zuckerberg, por isso é preciso estar atento ao que acontece com nossas informações. Ontem, no feed do Twitter, recebi um pedido de indicações de especialistas em privacidade digital e percebi que acompanho pouquíssima coisa sobre o tema. No mesmo tweet pude encontrar alguns perfis indicados que passei a seguir (@PrivacyMatters e @yaso), e encorajo todos a fazerem o mesmo. A melhor forma de se defender da coleta ilegal de dados é estando atento, até mesmo para perceber quando é a hora de parar de usar os serviços da empresa e buscar outros meios de se relacionar tanto com outras pessoas quanto com a informação.

Preocupações

Há doze anos eu crio uma ursa bastante felpuda chamada Miusha. Ela é esperta, não vai com a cara de todo mundo, morde e late de forma irritante quando se sente ameaçada, mas é um dengo só quando quer atenção. A gente costumava dormir juntas mas, depois que eu passei um ano ela fora, ela foi dormir com meu pai. Agora ela está idosa e eu começo a me preocupar por quanto tempo mais terei a sua companhia.

Há dois meses Ushinha está com complicações no mecanismo de defesa – os exames mostram baixa hemoglobina – por causa de alguma bactéria que ainda não descobrimos qual nem conseguimos acertar no tratamento. Nesses últimos dias, estamos realizando mais exames e buscando entender o que está acontecendo – e eu comecei a ter pesadelos.

Sonhei que eu aparava os pelos dela com uma tesoura e a cortava sem querer. Desesperada, saía correndo e voltava com um gelo para colocar na suca cabeça. Mas aí (começou a parte macabra) o focinho dela caía na minha mão e eu ficava olhando para a minha au felpuda sem o nariz. Acordei transtornada e dizendo para ela “me perdoe, me perdoe”.

Desde então eu só me preocupo. Me preocupo se vou conseguir tratá-la à tempo, se vou conseguir encontrar o medicamento certo, se ela está sofrendo de alguma forma que eu não sei, se eu devia ter feito algo antes – eu tentei, mas não funcionou. Toda essa preocupação me deixa em constante baixo astral e está influenciando outras áreas da minha vida. Mais do que nunca, eu me sinto só.

Luc Ferry diz que mais importante do que felicidade é a serenidade conquistada após vencermos o medo. “É o medo que nos torna egoístas e nos paralisa, que nos impede de sorrir e de pensar de forma inteligente, com liberdade.” O filósofo aponta que entre os três grandes medos da humanidade (timidez, fobias e medo da morte), o medo da morte é causado pela irreversibilidade da vida, aquilo que ele chama de “nunca mais”. “Tememos mais a morte de pessoas que amamos do que a nossa própria”, ele diz.

Me parece que estou tendo uma experiência de morte, antes mesmo dela acontecer. Imaginando o nunca mais, estou perdendo a minha serenidade, dando espaço para o medo e aumentando o meu desconforto sobre algo que eu só deveria sentir quando se tornasse real. Sei que de nada adianta eu me preocupar agora, só posso tentar me convencer de que estou fazendo tudo ao meu alcance para que ela fique bem. Por enquanto, tenho que aguardar uma semana para sair o resultado dos exames e, então, saber qual o passo seguinte para a cura.