Crônicas

Hard Knock Wife, um show sensacional de Ali Wong

Não sou de ver TV, nem mesmo Netflix. Mas há momentos em que nada mais me resta. Num deles eu descobri o último show de stand up de Ali Wong “Hard Knock Wife”, que quase me fez mijar de tanto rir. Ali é uma oriental de um metro e meio, cabelos longos e uma enorme barriga – na época em que foi lançado o programa ela estava grávida do seu segundo filho. Isso me fez ficar curiosa sobre o show imediatamente.

Como uma asiática grávida tinha conseguido um programa de stand up na Netflix? Em primeiro lugar, como ela tinha conseguido se apresentar num teatro? Dia desses ví um vídeo em que a atriz Claire Foy falava sobre como a indústria do streaming possibilitou a diversidade de produção de programas femininos, já que são necessários tê-los em catálogo, de forma a ter conteúdo para todo tipo de público. Ela atribui isso à melhoria na quantidade e qualidade dos papéis femininos nas séries e filmes que estão sendo lançados atualmente – sabiamente.

Impactada pela foto da capa, decidi dar uma chance. Eu não conhecia o primeiro programa de Ali, lançado há dois anos, mas talvez não tivesse gostado tanto assim caso o tivesse visto primeiro. A maturidade que Ali mostra no segundo é muito mais interessante do que as piadas sobre como conquistar dezenas de homens ou seu falso antifeminismo. Parece que a primeira gravidez da comediante trouxe um mais pensamento crítico para o segundo show que me fez simpatizar com essa pequena formiga vestida de tigresa e sapatilhas pink, mesmo que eu ache a combinação brega.

O show começa a ficar interessante quando ela fala sobre os pesares de ser uma nova mãe, tendo que ceder às demandas do bebê. Em certo ponto ela explica que finalmente entendeu sobre o que é o livro “A Árvore Generosa”: amamentação. “É sobre uma mãe que costumava ter todos esse belos ramos e maçãs e depois um pequeno aproveitador entra em sua vida e leva toda a sua merda, e então ela vira um toco de árvore triste com peitos deformados”, conta parecendo horrorizada.

Mas o ponto alto é quando ela começa a explicar que sentiu medo de ser mãe porque ninguém nunca viu uma mãe fazer stand up e de uma hora para a outra ela explica o que é um consultor de lactação: “um branco com dreadlocks chamado Indigo a quem você tem que pagar duzentos dólares para que ele corra à sua casa sugar o seu mamilo”. É aí, quando ela expõe a própria situação caótica que ganha o coração do público. “É por isso que as mulheres precisam de licença maternidade!”, ela grita. E ganha fortes aplausos, não por ser engraçado, mas por ser real.

Ela utiliza da própria comédia para fazer um discurso sociopolítico, em que ela compara as políticas públicas de países desenvolvidos como Canadá, França e Alemanha com o próprio, que não tem licença maternidade. “Licença maternidade não é só para criar vínculo com o bebê – foda-se o bebê! Licença maternidade é para que as novas mães possam esconder e curar seus corpos fodidos”.

E o que é mais genial é que em momento nenhum em que ela estava criticando a própria situação de mãe ela se explicou por estar carregando uma segunda barriga – e eu esperei por isso até o fim. Talvez porque ela espertamente entendesse que iria contra seu próprio discurso humorístico e o diminuiria de alguma forma ou talvez simplesmente porque ela achasse que não precisava explicar nada a ninguém e pronto. Gênia.

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