Inspire pessoas: Insecta Shoes

Eu gosto de seguir marcas no Instagram pela estética. As vezes eu nem curto o produto que vendem, mas gosto de acompanhar as imagens pela inspiração e posicionamento de branding que acho bacanas. A Insecta Shoes é uma dessas.

Eles são uma loja de sapatos feitos com tecidos reaproveitados, por isso veganos e ecológicos, e trazem essa temática verde para o posicionamento nas redes sociais. Cada post da Insecta Shoes é reconhecível, mesmo que não tenha nenhum par de sapato na imagem, e o mais bacana é que eles tratam de diversos assuntos nas redes – não só de suas novas coleções.

Inspire-se abaixo:

 

 

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Qual deles? 🤔 insectashoes.com

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CASAS DE EMERGÊNCIA PARA QUEM VIVE EM MORADIAS DE RISCO

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Ricardo Montero é chileno de Santiago. Há nove anos ele está ligado à organização não-governamental Um Teto para Meu País e ajuda a construir casas de emergência para pessoas que vivem em condições extremas de pobreza e zonas de risco. Em ações da ONG ele já passou por outros países latinos como Peru e México, mas agora ele assume o cargo de Diretor Social no Brasil.

Após tanto tempo desenvolvendo trabalhos relacionados a uma das primeiras necessidades do ser humano, a moradia, Montero tomou os ideais da organização para si e defende o direito a um território para todos os latinos. Conheça mais sobre a história e o trabalho desse jovem que lida diretamente com a pobreza, nesta entrevista inspiradora.

Como você começou a participar da Um Teto para Meu País?

Ricardo Montero – Comecei quando ainda estava no colégio. Como a ONG realiza construções com quatro tipos de público: universitários, empresas, famílias (quando alguma familia que tem recursos suficientes para bancar uma casa para a comunidade vem nos procurar) e colégios; eu conheci quando participei de uma ação que ela realizou com a minha escola, quando eu tinha 17 anos.

E como foi essa experiência?

Foi uma experiência que marcou a minha vida. Veja, isso aconteceu há nove anos e eu ainda trabalho na ONG. Eu pude conhecer uma realidade que muita gente tenta não enxergar. Me parece que a sociedade tenta evitar enfrentar esse tipo de situação, não reconhece o problema. Mas para mim foi muito interessante conhecer uma realidade do meu país que antes eu não conhecia.

O que te fez ter vontade de seguir com essa carreira profissinal?

Acho que o principal foi eu ter um resultado concreto, que é conhecer uma realidade e, passo a passo, tentar melhorar isso. É acreditar que existe algo na América Latina que é muito injusto, que não tem porque ser desse jeito, mas que dá para fazer algo.

Eu tenho amigos dispostos a trabalhar e conheço empresas que estão dispostas a fazer algo. É por isso que acredito nesse projeto que muda uma realiade muito extrema, como é a pobreza na América Latina, por uma melhoria na qualidade de vida de milhares de famílias.

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No Chile, um dos trabalhos realizados por Montero foi capacitação técnica de voluntários universitários/Foto: Divulgação

Você é o primeiro representante da ONG aqui no Brasil? Como a Um Teto veio para o país?

Não, a ONG já teve duas diretoras brasileiras e outros dois emplementadores, um chileno e uma norte-americana. A gente geralmente trabalha com pessoas de outros países que levam os nosso projetos aos 25 países da América Latina e já possuimos sede em 19 deles, inclusive no Brasil.

Quantas ações já foram realizadas aqui no Brasil?

Nós trabalhamos no Brasil há quatro anos. Nós já construímos mais de 420 moradias de emergência e o planejamento é chegar na casa de mil.

A última ação da ONG foi um reconhecimento de famílias da Vila Primavera, na Zona Leste de São Paulo, no final de semana passado. Como foi essa ação?

Foi bem tranquila. Nós fizemos levantamento de informações da realidade da comunidade. Visitamos e vimos quais são as moradias mais vulneráveis e quais casam com o nosso perfil de trabalho. Para isso, nós fizemos uma apresentação do projeto para a comunidade e depois uma detecção com um questionário para cada uma das famílias que mais precisam de ajuda. Assim podemos planejar o nosso trabalho futuro, quais construções que vamos erguer.

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Em outubro de 2010, comemora-se o Dia Mundial do Combate a Pobreza. Na ocasião, Um Teto para meu País organizou a Noite sem Teto em frente ao Monumento às Bandeiras/Foto: Divulgação

Quais são os critérios de decisão sobre quais famílias serão atendidas?

Nós temos uma enquete que se baseia em quatro critérios. No primeiro fazemos uma caracterização geral da família com informações básicas, como endereço, nomes e RGs; o segundo é o critério de vulnerabilidade, se a pessoa tem renda, trabalho fixo, carteira assinada, se sofre de alguma doença e precisa de medicamentos ou recebe alguma bolsa, se tem criança pequena ou mulheres grávidas… O terceiro fator mostra como está o estado da moradia, com informações sobre o chão, o teto, as paredes; e o último é de comentários gerais, como a história da família, há quanto tempo moram na comunidade e algumas avaliações que os entrevistadores fazem.

Toda essa entrevista está pontuada e soma um número final que nos permite calcular a situação dessa família e posteriormente conhecer quais as famílias que mais precisam de uma casa de emergência na comunidade.

Vocês já tem previsão de quando serão feitas essas construções?

No último fim de semana de março faremos uma construção com uma empresa, serão aproximadamente oito casas de emergência, e na Semana Santa a gente vai construir 50 moradias com jovens universitários de São Paulo.

Essas famílias serão deslocadas para outro local?

Não. Veja bem, a gente tenta resolver a situação das favelas hoje. Nós buscamos as pessoas mais vulneráveis da comunidade e transformamos suas moradias em uma casa de emergência. Porque há milhares de famílias brasileiras, hoje, que moram em situações irregulares e também há aquelas que moram em situação extrema, perto de córregos e zonas de risco. Então, a gente acredita que essa solução de agora é uma situação emergencial, mas tem que ser feita.

Todo sabemos que essas famílias precisam de uma solução definitiva, mas não aceitamos que elas continuem a morar do jeito que vivem. Então nós não buscamos outros terrenos, nós só construimos em lugares que as famílias já estão instaladas, e apenas para essa família.

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Voluntários aplicam um questionário socioeconômico a famílias que vivem em condições precárias, como barracos feitos de restos de papelão e lonas/Foto: Divulgação

No blog da organização, você escreveu um artigo em que defende que a melhor saída para as famílias atingidas pelas chuvas que vêm acontecendo no Brasil não é a remoção delas do local atingido, já que, dessa forma, elas estariam levando o mesmo problema (a falta de moradia de qualidade) para outro lugar. Quais ações você sugere?

Primeiro, acho que deveríamos falar da verdade: hoje, as remoções não adiantam. Porque a família que mora em zona de perigo, perto de córregos, ou qualquer outra situação de emergência, não está morando lá por opção. Está morando justamente porque não tem outra opção, uma possibilidade de morar em outro lugar. Nenhuma família vai colocar em risco a vida de seus filhos se existe outra escolha.

A remoção de uma família de zona de perigo sem ter um plano integrado, sem ter uma solução concreta, não adianta. Ainda mais se essa família for morar em outro lugar que tenha condições ainda piores daquele que ela já mora.

Nós precisamos de uma solução integrada que vá além das remoções ou entrega de bolsas de governo. É preciso de moradias definitivas e, depois, um processo de capacitação dessa família que permita o seu desenvolvimento. Não adianta ter uma família com moradia definitiva, se não se oferece educação, saúde e condições de trabalho. Porque vai provocar que essa família busque outro lugar onde morar, para que tenha condições de sobreviver. A situação de pobreza dessas famílias é provocada por multifatores.

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Voluntários transitam por vielas da comunidade de Vila Primavera, Zona Leste de São Paulo, em fevereiro de 2011/Foto: Divulgação

A Um Teto desenvolve trabalho em mais 18 países, como está o trabalho da ONG em locais como o Chile, por exemplo?

As ações da ONG são realizadas em três partes: a primeira parte é a construção de moradias de emergência, que é a parte que estamos trabalhando no Brasil; a segunda é simultânea à primeira, que é a implementação de planos de habilitação social, são assessorias em saúde, educação, oficinas de capacitação para os jovens. Essa segunda etapa nós já trabalhamos em outros países.

E tem uma terceira etapa de solução definitiva para uma comunidade sustentável. O que a gente busca é que essa comunidade não precise de auxílio ou de bolsas para ter desenvolvimento. A gente já trabalha no Chile na construção de moradias definitivas, já construímos mais de dez mil moradias definitivas e planejamos construir mais seis mil.

Em outros países também adiantados estamos buscando soluções, como regulamentação fundiária, autoconstrução e melhoria de moradias – essa é uma etapa final que a gente quer chegar. Queremos que a família não precise de uma ONG para ter o seu próprio desenvolvimento.

 

No início de março a Um Teto para meu País – Brasil lançou um vídeo institucional para divulgar as ações realizadas e conseguir mais ajuda e mão de obra para erguer casas de emergência para famílias em risco.

*Matéria originalmente publicada no portal EcoDesenvolvimento.org

DESENVOLVIMENTO DO CHOCOLATE BAIANO

foto1(4)A depender do terreno e do clima onde for plantada, a uva oferece sabor, aroma e qualidade diferentes para cada safra de vinho. O mesmo acontece com o chocolate. O cacau plantado nas diferentes terras das fazendas de Ilhéus adquirem sabor e aroma próprios, desde que fabricados de forma artesanal. Para esse modelo de produção dá-se o nome “origem controlada” e, como resultado, o chocolate ganha status de grife.

Os ganhos na qualidade do produto refletem-se no preço vendido. Hoje a arroba do “cacau de origem” pode chegar a até R$ 150. Enquanto isso, o cacau padrão ensacado e exportado para virar chocolate industrializado (pouco reconhecido no mercado mundial) vale a metade do preço.

Um mercado tão promissor só pôde ser desenvolvido com a queda do cacau na década de 1990, provocada pela vassoura-de-bruxa. Com a quebra, os cacauicultores tiveram que buscar alternativas para continuar em suas fazendas e agregar valor ao produto.

“Não existia demanda pelo cacau fino brasileiro. Como, por lei, é preciso ter apenas 25% de cacau nas fórmulas industrializadas, o chocolate comum leva adição de gorduras e produtos artificiais, que tornam qualquer tipo de cacau utilizável”, afirma o cacauicultor e chocolateiro Diego Badaró.

Quinta geração de uma família produtora de cacau, um dia Badaró resolveu visitar as fazendas falidas que havia herdado e começou a buscar no chocolate orgânico um meio de reerguer a produtividade das terras. Com a marca Amma, Badaró já exporta para países como Estados Unidos, Alemanha, Coreia do Sul, Austrália e Kuwait, além de 12 estados brasileiros. Para a primeira semana de julho, nos dias 6, 7 e 8, ele está preparando a versão brasileira do Salon du Chocolat, um dos mais importantes eventos internacionais do chocolate de origem, em Salvador.

O início do “cacau de origem”

Nos anos 2000, enquanto Badaró buscava um novo caminho para as suas fazendas, o Worldwide Institute, uma organização não-governamental que realiza pesquisas para o desenvolvimento sustentável, viu grande potencial de mercado para o chocolate da Bahia. Em uma pesquisa ligada às metas de preservação do milênio, a ONG viu no sistema de produção cabruca, em que o cacau cresce à sombra da mata atlântica e não utiliza mão de obra mecanizada, que a plantação cacaueira poderia se tornar um incentivo para a preservação da floresta local. Mas, para isso, era preciso desenvolver o mercado.

Já com a ideia do cacau de origem, a WWI precisou sensibilizar os fazendeiros e mostrá-lhes como tornar a prática rentável. O diretor da organização no Brasil, Eduardo Athayde, conta que, na época, a ONG trouxe até o chocolateiro italiano produtor de cacau fino Eugenio Guarducci para mostrar que a técnica artesanal poderia ser feita com a matéria-prima baiana.
Em uma encenação, Guarducci colocou chocolate baiano em embalagens italianas e deu para os fazendeiros provarem. Convencidos da qualidade do chocolate, eles só souberam da real origem do cacau no final do evento, quando a troca foi revelada. O resultado da ação não poderia ter sido melhor. Impressionados com a qualidade, muitos empresários do cacau quiseram investir nas fazendas e criaram suas próprias marcas.

A rota do chocolate

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O sistema cabruca não permite o uso de máquinas para a colheita do cacau/Foto: Divulgação

Por si só, a produção de chocolate de origem se mostra como um potencial motivo econômico para se desenvolver em Ilhéus, mas como a região possui tantos atributos naturais, a indústria chocolateira recebeu outro aliado: o turismo. Com praias, florestas de mata atlântica e clima tropical, os fazendeiros querem aproveitar a diversidade da região e montar uma rota do doce na Bahia.

A ideia é fazer com que a fazenda crie o seu próprio plano de turismo, com trilhas, passeios pelas praias, banhos de chocolate, degustação e até preparo do chocolate de origem. Assim, a renda investida retornará para a região de outra forma e desenvolverá ainda mais a economia local, como defende Eduardo Athayde.

Um empresário que tem planos de expandir os negócios para o ramo turístico é João Tavares. O cacau que leva o nome dele foi duas vezes vencedor do Cocoa of Excellence. Por isso, Tavares quer usar a sua fama internacional para chamar a atenção do público consumidor de chocolate, realizando tours.

“É um projeto nosso receber turistas pelo menos uma ou duas vezes por ano. Poucas semanas antes do Salon du Chocolat, nós vamos receber um grupo de dez chefes de cozinha para conhecer o nosso produto”, informou.

Viagens, negócios, sustentabilidade e chocolate. Assim, o sul da Bahia recria a cultura do cacau, tornando-se uma área de inovação e novos empreendedores. Um ambiente de geração de negócios e renda ao estilo boas start ups.

*Matéria publicada originalmente na Revista [B+]

“SÓ SEREMOS FELIZES SE TENTARMOS FAZER OS OUTROS FELIZES TAMBÉM”

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Ana Lins é jornalista e trabalha com recrutamento de grupos de dinâmica para empresas de pesquisa de mercado. Mas desde 1995 assumiu uma outra atividade, a qual se dedica com muito empenho: o voluntariado. Atualmente, Ana lê poesias para crianças no hospital Instituto Fernandes Figueira, às terças e quartas-feiras, todas as semanas.

Ela começou no hospital após um convite de uma médica amiga e, na época, a nova atividade causou certo ciúme entre seus filhos, que faziam coro no versinho: “Refazer é a minha vida”. Uma brincadeira com o nome do projeto em que trabalhava. Mesmo assim Ana continuou.

Após 16 anos de doação aos jovens no IFF, a mãe coruja passou a ser fonte de admiração não só para seus três filhos e marido, como também para as mães e crianças que recebem sua ajuda no hospital. Uma inspiração para quem busca a felicidade!

Como você conheceu o projeto do Instituto Fernandes Figueira?

Ana Lins: Desde 1995 comecei a trabalhar como voluntária numa ONG chamadaRefazer, ligada ao Hospital Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz. Cheguei a ser presidente da ONG e a população que atendíamos era do hospital. No final de 2003 me engajei no projeto Biblioteca Viva e logo após me desliguei da Refazer.

Antes de fazer parte do projeto Biblioteca Viva eu participei também, dentro do mesmo hospital, do projeto Novos Caminhos, de geração informal de renda para pessoas que têm filhos com doenças severas e que não têm condição de trabalho. Elas aprendiam algum ofício que pudesse ser feito enquanto aguardavam a fisioterapia ou a consulta da criança.

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O hospital também possui uma sala para atividades infantis/Foto: Acervo pessoal

Há quanto tempo você participa do projeto e qual a sua área de atuação?

No projeto Biblioteca Viva eu trabalho em várias áreas: leio para bebês na UTI neonatal uma vez por semana; leio para crianças que aguardam suas consultas no ambulatório de neurologia; participo da coordenação do projeto e, por iniciativa minha, faço um brechó social de três em três meses, com a renda revertida para o projeto.

Assim, sou uma das principais mantenedoras do BV, que vive de doações. Sou também voluntária acompanhante: vou à enfermaria pediátrica e fico brincando, tomo o papel de uma tia carinhosa para alguma criança que tenha uma visitação pouco frequente da família.

Mas não é só dos brechós que você consegue as doações…

Com o network que fiz sendo presidente da Refazer por dois anos, também consigo captar doações de livros, roupas, equipamentos hospitalares, carrinhos de bebê e até padrinhos para crianças. Estou sempre chegando no hospital carregada. Acho que as pessoas sabem a causa importante e séria pela qual batalhamos e depositam confiança no meu trabalho.

Qual a motivação que faz você ter vontade de visitar essas crianças?

Sou uma voluntária presente e esse contato com crianças com doenças difíceis e, na maioria das vezes, crônicas me torna uma pessoa feliz, bem-humorada, de bem com a vida. Porque eu tenho a certeza de que eu dou o meu melhor para elas e a resposta que eu tenho é efetiva, ali, na hora, o sorriso, o olhar, o sonho, a troca de energia. Saio sempre muito melhor do que cheguei, mesmo que seja um dia lidando com alguma criança com doença muito pesada e que me emocione muito.

Você acompanha o desenvolvimento delas de perto? Quando elas deixam de participar do projeto?

O projeto Biblioteca Viva tem voluntários que leem em todas as unidades do hospital – um hospital referência materno-infantil. Então, enquanto elas frequentam o hospital têm voluntários lendo. E elas só são desligadas de lá depois que fazem 18 anos.

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As crianças só deixam de ser acompanhadas a partir dos 18 anos de idade/Foto: Acervo pessoal

Há alguma pesquisa que mostre que a leitura (ou a companhia) ajuda no desenvolvimento dessas crianças?

Já está sendo comprovado e minha coordenadora, Madalena de Oliveira, vem apresentando trabalhos que mostram a importância da leitura desde o início, na UTI neonatal. Muitas vezes reencontro mães nos corredores do hospital em que li para seus bebês prematuros e elas me dão o testemunho de que são crianças que gostam de livros e de histórias.

Além disso, hospital não é lugar para criança. Lugar de criança é em casa e os livros que lemos para elas dão a possibilidade desse sonho. Só isso, já é tudo. Crianças com procedimentos severos, muitas vezes dependentes de oxigênio já desde cedo… Você imagina a importância do trabalho de nós, que somos atualmente, 75 voluntários.

Você indicaria um trabalho voluntário para outras pessoas? Por quê?

Indico porque acho que não tem saída: estamos todos no mesmo barco e só seremos felizes se tentarmos fazer os outros felizes também. No caso do hospital que trabalho, a pessoa tem que se sentir confortável dentro de um hospital, gostar de criança e de livros. Basta isso.

Qual o maior aprendizado que você já teve nesses tempos de trabalho?

Eu aprendi a ser uma pessoa que valoriza o outro, que presta atenção no outro, sem preconceitos, apostando que o outro é capaz. E sou uma pessoa feliz.

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Ana acredita que o hábito da leitura traz consigo a vontade de sonhar/Foto: Acervo pessoal

*Matéria publicada originalmente no portal EcoDesenvolvimento.org

ARTE E VIDA REAL SE CONFUNDEM QUANDO SE VIVE UM SONHO

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Paulo ou Magnólio? Qual nome chamar? “Você sabe que todo palhaço vive um personagem e também a própria vida, não é? Mas eu já não faço mais isso, o meu personagem e a minha vida se misturam e eu já não sei quem é quem.” Nem ele próprio sabe quem responde às perguntas. Dito isso, Magnólio caiu na gargalhada.

À primeira vista esse pensamento não seria tão engraçado, se ele mesmo não fizesse daquilo uma piada. A risada rouca de Magnólio provoca um riso involuntário no ouvinte e dá espaço para que mais assunto seja puxado. Essa conversa em específico tomava rumo no trajeto de vida desse homem que vive para provocar alegrias e consciência social àqueles com quem se relaciona.

Paulo Roberto Sposito ganhou o apelido de Magnólio quando ainda era estudante. Por ter uma voz muito rouca, ele foi comparado a um personagem de novela com o mesmo timbre e, com o passar do tempo, o apelido virou hábito e absorveu variações. Magnólio virou artista de circo, um artista que vive encarnando seu papel a cada dia de trabalho na organização Saúde e Alegria, na floresta amazônica do Pará.

A organização existe há 35 anos. O principal objetivo daqueles que dela participam é promover o desenvolvimento sustentável dos municípios Belterra, Aveiro e Santarém – que ficam em uma região chamada de Médio Amazonas, na confluência dos rios Amazonas e Tapajós.

Conheça a história inspiradora desse paraense que já conheceu todos os estados do país enquanto ensinava o modelo educativo utilizado na promoção da saúde dos cerca de 30 mil ribeirinhos do Pará.

Quando você começou a realizar trabalhos sociais?

Magnólio: Desde os tempos de escola, quando participava de movimentos e associações juvenis, mas o interesse de fazer disso o meu trabalho surgiu quando eu trabalhei no escritório de advocacia trabalhista da minha família. Eu, meus sete irmãos e meus pais cuidávamos de ações de operários contra patrões e eu percebi que esse poderia ser o caminho da vida.

Mais tarde eu fui para São Paulo fazer aulas de técnicas circenses na Academia Piolim de Artes Circenses, fui da primeira turma que formou na escola, e daí fiz um curso de serviços sociais. Essa minha formação maluca permitiu que eu agregasse conhecimento de várias partes e pudesse aplicar na Saúde e Alegria.

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Magnólio em palestra no Fórum Amazônico de Cultura Digital, em 2009/Foto: Acervo pessoal

Quais são as suas atividades dentro da ONG?

Quando eu conheci o pessoal da ONG eu recebi uma proposta de trabalho comunitário, por meio da educação e o desenvolvimento da comunidade com o uso do lúdico. Como eu tenho formação no circo, o meu trabalho é deixar o conhecimento mais simples e dinâmico possível para que as pessoas realizem as ações de forma mais prática. Eu acredito no poder das pessoas de simplificarem as coisas e é com isso que eu conto quando dou uma palestra.

Você ainda visita hospitais e escolas?

Sim, mas somente para treinar e disseminar a metodologia que faça as pessoas entenderem que falar de saúde não é falar de doença. Normalmente, as pessoas têm o péssimo hábito de encarar a saúde como estar doente ou não, quando te perguntam “E aí, Fulano, como você está?” e você responde “Estou saudável, então está tudo certo…”. Saúde é mais do que isso. A saúde é vida. O corpo é um mecanismo orgânico inteiro de saúde mental e do corpo interligadas. Não há várias ciências de estudos do corpo e da mente, a ciência é uma só que se reparte para facilitar a pesquisa.

Hoje eu posso somar cerca de 2.000 palestras por ano, para diversos públicos: professores, pescadores, empresários, agentes pastorais… A gente trabalha com o desenvolvimento integrado entre vários setores da sociedade, tratando de abordagem holística da saúde, motivação e, sobretudo, ALEGRIA.

Como surgiu a Saúde e Alegria?

Eu entrei na ONG em 1989, mas ela já existia desde 1985. O fundador, Eugênio Scannavino Netto, já era médico quando veio de São Paulo para atender às comunidades ribeirinhas da amazônia paraense distribuindo cloro para o combate à diarreia e desenvolvendo ações para diminuir o alto índice de mortalidade infantil. Nesse mesmo ano, ele e a educadora Márcia Silveira Gama fizeram um trabalho piloto em parceria com a prefeitura de Santarém e então me chamaram para o CEAPS – Centro de Estudos Avançados de Promoção Social e Ambiental, mais conhecido como Saúde e Alegria.

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Magnólio é o palhaço no topo da embarcação/Foto: Caetano Scannavino/Saúde e Alegria (Divulgação)

De lá para cá o projeto se desenvolveu e atende a diversas demandas da comunidade ribeirinha da região de Santarém. Quais são as ações?

O projeto foca nas ações relacionadas à organização e gestão comunitária, com educação para a cidadania, apoio à gestão e o desenvolvimento territorial, associativismo e cooperativismo, e assessoria aos movimentos sociais. Também realizamos ações relacionadas à economia da floresta, ligadas às questões de segurança alimentar dos ribeirinhos, agroecologia, energias renováveis, ecoturismo de base comunitária e artesanato sustentável.

Uma área que eu trabalho diretamente é a ligada às questões de saúde comunitária, sobretudo na educação e prevenção em saúde, higiene e saneamento. Além da questão educativa, nós realizamos ações para a saúde da família e o monitoramento epidemiológico. Mas a ONG também realiza ações para a comunicação, educação e cultura da comunidade: nós promovemos a educação ambiental, a escola comunitária, a inclusão digital dos jovens e a rede de comunicação comunitária, chamada Rede Mocoronga.

Além da Saúde e Alegria, você possui outras ocupações?

Toco com minhas filhas o Acampamento Experimental Sítio do Sobrado, em São Paulo. Ele é experimental porque mudamos a metodologia das atividades de educação ambiental e social a cada temporada. É um trabalho de resgate da natureza com jovens paulistanos que vivem enfurnados no computador.

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Ele ainda mantém uma empresa de assessoria e um acampamento de férias/Foto: Acervo pessoal

Qual a sua motivação para continuar na ONG?

Eu continuo na ONG porque, primeiro, o meu trabalho na Saúde e Alegria ainda não terminou. Além disso, é muito gratificante e divertido participar disso tudo porque envolve pessoas transformando estruturas sociais vigentes por puro amor à espécie humana. Eu trabalho naquilo que eu gosto e com aquilo que eu sonho.

Em minhas palestras eu costumo citar Pablo Neruda com a frase “para fazer um jardim você não precisa ser um botânico, basta gostar das flores”. É mais ou menos assim: para fazer um trabalho comunitário você não precisa ser especializado em serviços sociais, basta gostar de gente.

Mas a minha motivação maior são as minhas filhas. Eu quero ser para elas um exemplo de altruísmo, de promoção ao bem-estar social e de alegria.

*Matéria publicada originalmente no portal EcoDesenvolvimento.org