É preciso estar atento ao Facebook

A notícia de que o Facebook quer unificar suas plataformas de mensagens instantâneas, divulgada por Zuckerberg na quarta-feira passada, me deixou um pouco preocupada. A empresa vai combinar os serviços do WhatsApp, do Instagram e do Facebook Messenger para que usuários possam enviar e receber mensagens por meio de qualquer uma das plataformas. A primeira coisa que me veio à cabeça quando li a notícia foi a lembrança das Eleições de 2018, quando o WhatsApp permitiu a proliferação de fazendas de notícias falsas que acabaram influenciando na votação.

Nós, usuários, estamos numa sinuca de bico. Se por um lado não queremos que o governos e agências de inteligência tenham acesso às nossas conversas, por outro temos que lidar com a desinformação tornando o nosso mundo mais ignorante e a nossa vida mais difícil. No Twitter, a diretora da Aos Fatos, Tai Nalon explicou a preocupação de quem trabalha contra a desinformação: “redes mais fechadas condensam mais falsidades, pois ajudam a esconder seus autores, da mesma maneira que integrar grupos menores e mais fechados tornam o debate menos plural”.

Além disso, o plano também envolve a expansão dos serviços de e-commerce e pagamentos da empresa, mas eles ainda não explicaram qual o papel do serviço de mensagens nesse grande sistema.

O Facebook corre

Numa entrevista para a Associated Press, a diretora de Estudos de Mídia da Universidade de Virgínia, Siva Vaidhyanathan explica que o objetivo de Zuckerberg é fazer com que as pessoas abandonem os competidores (e-mail, mensagens de texto ou o serviço de mensagens da Apple) para fazer tudo através de um produto Facebook. O objetivo é transformar o Facebook em um serviço como o chinês WeChat, que tem 1.1 bilhões de usuários ativos e é dono do mais popular serviço de pagamento on-line do mundo.

Parece que o Facebook forjou uma corrida para ver quem vai dominar a vida digital do planeta, ao mesmo tempo em que luta contra a competitividade e a regulamentação. The Guardian divulgou, inclusive, que a empresa está investindo pesado em lobby contra leis de privacidade e até jogando sujo com ameaças a políticos dos EUA, Canadá, Reino Unido e Brasil na tentativa de impedir a regulamentação.

Preocupada, a Comissão para Proteção de Dados da Irlanda está buscando detalhes sobre os próximos passos da empresa. Já que a sede europeia da empresa fica lá, a Irlanda é o país responsável pela fiscalização da rede na União Europeia. A ideia de maior integração entre Facebook, Instagram e WhatsApp é um rompimento do acordo da companhia com a UE na época em que a análise antitruste autorizou a compra do WhatsApp. É também, dependendo de como for implementado, uma ruptura da legislação de privacidade de Bruxelas. Esses acertos entre UE e Facebook podem moldar o mercado digital mundial e impactar diretamente em nossas vidas na forma como nos relacionamos com nossas famílias, amigos e empresas.

Como a gente fica nessa?

Como a resposta dos governos vem em passos de formiguinhas e as movimentações do Facebook correm contra o tempo pois buscam alcançar o controle do mercado mundial, os usuários são deixados à mercê da empresa. São os nossos dados e acessos que geram receita para o bolso de Zuckerberg, por isso é preciso estar atento ao que acontece com nossas informações. Ontem, no feed do Twitter, recebi um pedido de indicações de especialistas em privacidade digital e percebi que acompanho pouquíssima coisa sobre o tema. No mesmo tweet pude encontrar alguns perfis indicados que passei a seguir (@PrivacyMatters e @yaso), e encorajo todos a fazerem o mesmo. A melhor forma de se defender da coleta ilegal de dados é estando atento, até mesmo para perceber quando é a hora de parar de usar os serviços da empresa e buscar outros meios de se relacionar tanto com outras pessoas quanto com a informação.