Nunca peça desculpas por como conseguiu sobreviver

Relacionamentos ficam melhores com o tempo. Não porque as coisas se ajustam e os problemas vão embora. Mas porque depois de um tempo convivendo com a pessoa amada, você aprende (ou deveria) a conhecer melhor aquela pessoa e passa a entender como se dão as situações de crise. Passando por um bom número de situações de crise e continuando com o mesmo relacionamento por vontade própria, você desenvolve (ou deveria) auto-estima suficiente para aceitar os defeitos e mal-feitos  do outro, sem se sentir diminuído, ainda que machucado.

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Volta pra mim

– Claaaara! Claaara!

A essa hora da madrugada o bairro inteiro já estava dormindo e apenas uma janela remanescia com a luz acesa, e não era a de Clara, era a de outro quarto na casa ao lado. Mas Luiz não se importava. Ele havia tentado falar com Clara a noite toda sem nenhum sucesso, agora se encontrava na rua dos Araçás, num bairro residencial de casas, às três da manhã gritando o nome da moça. O breu da rua era evitado por aquela única janela e por um poste a quinze metros de distância, mas ninguém se importava.

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Quase trinta

Agora que chegava aos trinta pensou que nunca esteve pior, pelo menos no que diz respeito ao físico. Tinha parado de praticar academia há seis meses e restavam apenas as caminhadas às seis horas da manhã, três vezes na semana, sozinha, enquanto todos da casa dormiam. A disposição gerava alguma admiração entre os familiares mas não lhe rendia frutos. Não conseguiu reduzir nem um centímetro sequer do corpo e, apesar da insatisfação, continuava com a rotina porque pior sem ela.

Um triste dia, cansada de imaginar que em algum momento da juventude tivera um corpo magro e que nunca mais voltaria a ele, resolveu fazer algo a respeito e se inscrever em uma atividade de luta — algo que queria experimentar desde quando era adolescente.

Na hora marcada da aula, terça-feira às 20h, lá estava ela completamente não à vontade num ambiente que conseguia achar defeito até na catraca de acesso. Nunca gostou de academias, pelo contrário, tinha grande preconceito. Essa era a quarta vez que tentava uma inscrição sabendo que não duraria mais do que dois meses. O ambiente de pessoas com corpos perfeitos a deixava constrangida por ser tão conhecedora das próprias imperfeições.

Tinha os ombros mais largos do que os quadris e era robusta, de grande estrutura. Fosse uma pessoa magra seria mais apresentável e delicada, com ombros e braços finos, como as moças que acompanhava nas redes sociais. Gostava de se imaginar em roupas que não caiam bem no seu perfil e aquilo trazia mais tristeza. Imaginava escolher a roupa que iria para academia e não ficar adequada quanto às alunas que tinham a bunda mirando o céu. Sabia que nunca se sentiria à vontade ali, muito menos sozinha como estava.

Após o grande ato de coragem de participar da primeira aula, três semanas se seguiram e ela continuou frequentando. Criou até uma rotina para poder esperar a aula de forma agradável e que não a fizesse desistir. Chegaria direto do trabalho quarenta e cinco minutos antes, tempo que usaria para colocar a leitura em dia. Aquilo era razão suficiente para continuar, pelo menos enquanto tivesse bons livros.

Na segunda semana já notou seu corpo mais firme e desinchado. Seu humor melhorou consideravelmente, chegou a achar que dentro de um mês estaria magra. Mas isso não aconteceu. Ela percebeu que agora, com os exercícios, tinha passado a se dar o luxo de comer mais bobagens na rua. Como gostava muito de comer, os novos exercícios diminuíam a culpa. E logo entendeu que nunca teria o corpo de uma das moças do Instagram.

Resolveu então olhar pelo lado positivo. Ela nunca foi magra, assim como se vê nas redes sociais. Os exercícios, apesar de acompanhados de uma grande dose de comida, não mudariam seu corpo mas ajudavam a se sentir melhor consigo mesma. Entender isso foi o primeiro passo para aceitar o que ela era e tentar ser feliz. A primeira medida que tomou foi procurar uma aula de pilates, pois se tinha que sofrer com alguma atividade física melhor que sofresse com algo que se sentia bem.

Na semana seguinte já estava em novo horário, pela manhã, quando se sentia mais disposta para fazer exercícios, dividindo a sala de pilates apenas com a professora. Estava com um bom sentimento sobre toda aquela mudança, Achou que estava a caminho da vida que queria ter.

Quando você já quer o novo

Seu aniversário é daqui a algumas semanas, mas sua mãe já comprou seu presente. É um sapato que você vem namorando há algum tempo. Já guardou fotos e mais fotos dele no seu celular, no seu painel de Pinterest, e finalmente ele é seu — mas só daqui a algumas semanas.

Por enquanto ele fica embalado numa caixa esperando o grande dia. Por enquanto você pode apenas tirar o sapato da caixa e provar por alguns minutos. Quem sabe ele combina com a roupa que você vai vestir para ir ao trabalho hoje?

Você imagina, veste a roupa, vai onde a caixa está guardada, calça o sapato em frente ao espelho e vê que ele combina sim com a roupa que está vestindo, ou até melhor do que qualquer outro sapato que você tem no guarda-roupa. Mas ainda não chegou a hora.

Você guarda tudo de novo: sapato dentro do saquinho, saquinho dentro da caixa, caixa dentro da embalagem e embalagem no lugar onde o presente estava guardado. Pega o sapato antigo, veste e vai trabalhar. Você já quer o novo, mas a hora ainda não chegou.

AQUELE MEDO QUE DÁ

– Eu posso ficar aqui um pouquinho?

A voz dele estava abafada, como que se abafasse o choro ao respirar. Debaixo da franja que já estava chegando nos olhos, corria um rio seco que deixava o rosto ainda úmido.

– Claro que sim, kiddo. – Agora não tinha mais como continuar o trabalho. O passo mancinho e a voz anazalada indicavam que queria atenção. Então fingiu que estava digitando alguma coisa importante enquanto o menino acariciava mechas do seu cabelo.

– Quê que aconteceu? Por que resolveu vir me ver assim, de repente? Não estava brincando com o pessoal da rua?

Pausa. Alguém tentava respirar baixinho.

– É que eu tô aborrecido.

Ela achou engraçado. Aborrecido era uma palavra que ele tinha aprendido naqueles dias, assistindo televisão.

– Mas como assim, aborrecido?

– Aborrecido. Eu estou aborrecido e não quero conversa. Quero ficar aqui quieto olhando você escrever.

Agora era sério. Se tivesse acontecido alguma bobagem, com certeza, um dramazinho já resolvia e depois de alguns chamegos o sorriso voltava, tudo estaria bem.

– Algum amigo seu fez malcriação com você?

– Não.

– Você caiu e se machucou?

– Não. (suspiro).

– Você quebrou algum brinquedo? O carrinho que ganhou de Natal?

– Não, mããããe, não teve nada.

– Bom, então eu não vou voltar a escrever até você me dizer o que aconteceu.

Ele ficou parado por alguns instantes, baixou a cabeça e respondeu.

– É que eu lembrei daquele filme que o menino perde o pai, e eu pensei que ficaria muito triste se alguma coisa acontecesse com você.

– Hum. Eu sei, eu também ficaria muito triste. Mas olhe só, eu tenho quase certeza que nada assim vai acontecer comigo. Não fique pensando nessas coisas. Na maioria daz vezes, quando a gente fica imaginando coisas em nossa cabeça, nada disso é verdade. Nada realmente acontece de verdade… é só imaginação. Entendeu?

Ele fez que sim com a cabeça para não contrariar. As lágrimas já tinham secado, mas ele ainda estava carrancudo.

– Então, vai voltar lá pra baixo?

– Hum, não. Vou ficar aqui vendo você escrever.