Quando Watson seguiu em frente

Em determinado momento das histórias de Conan Doyle, Watson sai do apartamento 221 B na Baker Street para se casar com a noiva Mary, e nesses dias me peguei pensando, esse deve ter sido um momento bastante sofrido para Sherlock. Fico tentando imaginar como lidou com a mudança que estava por vir. Aposto que passou dias criando armadilhas por todo apartamento como forma de se vingar do abandono do amigo, que queria seguir a vida sem a sua presença diária em benefício da nova esposa.

Na minha cabeça, Sherlock passou dias escondendo pertences de Watson, sempre que pensava no que estaria por vir. Certa feita o médico passou horas procurando pela escova de dentes para encontrar, finalmente, muito depois da hora de dormir, dentro de uma botina que fedia a chulé. Outra vez se cansou de buscar por sua caneta preferida para terminar uma história e só foi encontrá-la dois dias depois mergulhada num copo de água que guardava a dentadura de Mrs. Hudson. Me divirto assim com essas pirraças que associo à personalidade do investigador quando ele se sentia contrariado.

Provavelmente Watson entendia que o companheiro não fazia por mal, e poderia até rir caso não estivesse tão zangado com a situação. Essa era também uma forma de perceber que Sherlock estava sim sentindo a partida do amigo, mesmo que negasse a importância. Sherlock, a partir de então, se viria sozinho naquele apartamento vazio e silencioso, enquanto Watson seguiria melhor acompanhado e muito feliz, quem sabe, por toda sua vida.

Ao mesmo tempo, o detetive entendia que a mudança na vida dos dois seria apenas física, pois a amizade continuaria. A felicidade do amigo era motivo suficiente para que Sherlock entendesse e apoiasse aquela “separação”. Assim era a vida. Sherlock passaria alguns dias em casa sem nenhum contato com o mundo exterior, porque não suportaria ninguém naquele momento, mas depois a ordem seguiria o caos e se instalaria novamente.

A paixão por Mr Knightley

“Deus sabe que tenho sido um enamorado bastante medíocre. Sim, veja bem, você compreende meus sentimentos (…) e vai poder retribuí-los se puder. De momento só peço para ouvir, ouvir mais uma vez a sua voz”.

 

Manu caiu para trás, deitada na cama, num grande suspiro. Perdeu as contas de quantas vezes já tinha lido esse trecho do livro nos últimos dias. Sabia que já era a segunda vez que havia lido naquele dia – uma logo quando acordou e outra depois, agora, depois de chegar do trabalho. Ainda não tinha jantado ou tomado banho, não tinha fome e não estava com vontade de fazer nada, só ficar ali agarrada com o livro imaginando.

Ela só pensava na história de Emma. Ela só imaginava o que sentiria no lugar da protagonista ouvindo a declaração de Mr Knightley. Ela sonhava acordada com alguém de caráter e personalidade tão forte e tão correto do seu lado. Lia e relia os trechos do livro. Via e revia os quatro episódios de uma minissérie da BBC que tinha encontrado na internet. Quando estava trabalhando, seus momentos de descanso eram presa ao celular, no Youtube, revendo os trechos da série disponíveis. A parte da dança entre Emma e Knightley sempre lhe deixava emocionada e a declaração no jardim da casa de Emma era um dos seus vídeos favoritos. Seu coração se aquecia e ela se esquecia das decepções que estava vivendo no próprio relacionamento.

Manu agora estava com vinte e cinco anos, e já se considerava alguém com experiências de vida. Já tinha feito intercâmbio fora do país e tinha muitos amigos, mas por ter uma personalidade reservada, tinha intimidade com poucos. O mesmo princípio usava para aqueles com quem se relacionava emocionalmente, apesar de já ter ficado com um bocado de rapazes, só havia namorado um – o atual.

Com o namorado, a moça dividia os mesmos hábitos de ler, ver filmes, ir a cafés e restaurantes, ter poucos e bons amigos. Mas se seus gostos eram iguais, suas personalidades não podiam ser mais diferentes. Enquanto Manu era reservada na vida pessoal, o rapaz era expansivo e gostava de ser o centro das atenções onde quer que fosse. No início do namoro, essa diferença não deixava com que se entendessem por muito tempo e os faziam brigar todo fim de semana, quando passavam mais tempo juntos. Naqueles dias, estavam brigados novamente, ela colecionava mais uma desilusão, estava convencida de que ele se envolvia emocionalmente com uma colega do trabalho.

Manu tinha um gosto pitoresco quando o assunto eram comédias românticas, ela costumava escolher suas preferidas de acordo com o relacionamento dos personagens, e principalmente pela personalidade do personagem masculino. Tinha inclinação para os não sociáveis e de bom caráter, por isso Jane Austen fazia tanto sucesso na sua estante. Orgulho e Preconceito tinha ganhado seu coração quando ainda era menina. Mr Darcy era um esquisito que não fazia questão de agradar ninguém, mas quando estava apaixonado movia montanhas para agradar a amada. Para Manu, assim como para Lizzy, a arrogância e o desdém pelos sentimentos alheios podiam ser superados pelo amor. Ele era o parceiro ideal – até a chegada de Mr Knightley.

Agora já mais velha, resolveu ler todos os livros da escritora, começando por Emma, mas não conseguiu ir adiante porque só relia. Sua obsessão pela história fez com que buscasse filmes e minisséries derivadas, seguisse os atores nas redes sociais e assistisse todos os vídeos de entrevistas disponíveis. Manu passou tanto tempo stalkeando o ator que fazia Mr Knightley na minissérie da BBC que o pegou trocando likes e elogios com uma atriz albanesa, com quem fez par romântico em outro filme. Primeiro ficou magoadíssima, afinal o ator era casado. Depois pegou ranço da menina, porque achou que as investidas dela eram mais abusadas do que as dele, e lhe pareceu que a garota estava forçando. Passou dias observando as ações de um e de outro, e refletindo como aquilo que acontecia no casamento do ator também se repetia no seu namoro. Acabou não conseguindo mais assistir a minissérie.

Pudesse, Manu namorava Mr Knightley, mas ele não existia. Era um personagem cuidadosamente moldado por Austen para ser tudo o que um homem deveria ser: sincero, racional, protetor, atencioso, etc. Aceitar que aquilo nunca se repetiria na vida real era difícil, porque Manu cresceu acreditando naquela possibilidade, foi criada para aquilo. Acho até que, mesmo que os dias passassem e ela esquecesse um pouco de Mr Knightley, ela não esqueceria do ideal.

O desespero é contagioso

Quem nunca foi levado ao desespero pelo contágio de outra pessoa não sabe o que é arrepio na espinha. Porque uma coisa é você se sentir desesperado e ter alguém que lhe conforte, outra completamente diferente é você ser levado ao desespero pela pessoa que te serve de base emocional. Frequentemente esse contágio se dá entre casais, amigos ou parentes que dividem muitos momentos juntos. Invariavelmente, a pessoa que é a base emocional da relação não consegue segurar o desespero o tempo todo e a contaminação é certa. Se não houver alguém que tome as rédeas da situação, todos estamos perdidos. Júlia e Pedro estavam juntos há três anos. Ele era enfermeiro e ela engenheira química. A amizade de poucos meses, durante a faculdade, se transformou em “algo mais sério” depois de dois anos, quando começaram a namorar. Agora, após cinco anos de relação, um já estava completamente adaptado ao outro de forma que o relacionamento era o melhor da vida de cada um, principalmente depois que eles entenderam a dinâmica do desentendimento: Júlia queria ter o controle de tudo e Pedro não queria controle nenhum. Volta e meia eles brigavam porque ela carregava sozinha as responsabilidades que faziam parte da relação. O que a levava a ponderar se valia mesmo a pena entrar num casamento com alguém que não resolvia nada e tudo postergava, evitava ou se esquecia. Mas Pedro também se questionava, como casar com alguém que não achava nada bom o suficiente? Mas eles se amavam profundamente, e nem as dúvidas eram capazes de os separar. Foi quando eles foram empurrados a dar o próximo passo que tudo mudou. Numa noite de celebração, Júlia tinha acabado de ser promovida e Pedro a tinha levado para jantar, os dois terminaram na cama adiando cada vez mais o término dos momentos de carinho e namoro, quando de repente o sêmen que estava ali na parte de reserva da camisinha sumiu. O alívio resultado das horas de prazer virou preocupação e desespero. Para onde ele teria ido? A camisinha não tinha estourado. A quantidade era considerável e agora não se via muita coisa. Meu Deus, pra onde? Pedro achava que tinha se espalhado dentro do saco de látex, Júlia não tinha tanta certeza assim, podia ter vazado e ninguém percebeu ou pior, estar dentro dela – de alguma forma. Não é possível, eu coloquei água, veja, não está furada. Ela não conseguiu dormir. Começou a fazer as contas e se deu conta que há dois dias estava saindo do período fértil, e se o óvulo ainda estivesse por ali e houvesse a fecundação. Meu Deus, eu não posso ficar grávida. Eu não posso perder meu emprego, não depois de ter um filho. Quando a licença maternidade sair vão colocar outra pessoa no meu lugar e eu não vou ter a preferência. Eles vão me demitir como fizeram com Rose. Eu não posso engravidar. Agora os dois estavam sentados na cama, lado a lado. E o desespero de Júlia fazia Pedro ficar perdido. E se ela engravidasse? Ele não tinha emprego para sustentar nem a si mesmo, quanto mais uma criança. Não era possível, nada tinha vazado, só tinha se espalhado. Ele viu que a camisinha não estava partida, tinha certeza. Tratou de acalmá-la e colocar panos quentes na situação. Venha, vamos ver um pouco de TV e dormir. Mas ela não dormiu, nem o deixou dormir. Quase duas horas depois, ela pôs em dúvida tudo o que o namorado já dava por resolvido e estava tão angustiada e nervosa que o forçou a tomar uma decisão, e tinha que ser rápido: sair para comprar uma pílula do dia seguinte. Os dois foram até a farmácia 24 horas mais próxima em silêncio. Lá compraram a droga e Júlia sentiu um arrepio na espinha. Aquilo era uma bomba de hormônios e causava diversos efeitos colaterais, inclusive má formação de feto. A garota voltou para casa repensando tudo. Na melhor das hipóteses, a camisinha fez o seu trabalho e ela não precisava tomar aquilo. Mas a insegurança não deixou que mudasse de ideia e logo quando chegou tomou o comprimido único. Não sentia alívio, mas sabia que eles haviam feito tudo o que estava ao seu alcance para remediar a situação. Do seu lado e com a bula da pílula na mão, era a vez de Pedro repensar tudo o que a namorada havia lhe falado sobre o emprego e a insegurança de ser demitida. Odiava quando não se sentia capaz de atender às expectativas dela, se sentia menor, pequeno, e isso acontecia com frequência. Ele sabia que por não ter um emprego contribuía com os medos de Júlia e se deu conta de que precisava fazer alguma coisa. Não só por ela, mas também para renovar suas expectativas. Queria se casar, ter uma casa, uma família, queria um futuro e da forma que estava não tinha condições de fazer nada. Prometeu a si mesmo que iria buscar qualquer trabalho, até mesmo de acompanhante de idosos, ele precisava. Os dois assim adormeceram, lado a lado, exaustos depois da crise, e com resoluções na cabeça.

Paciência

Num hospital de atendimento de emergência ortopédica, ainda cedo pela manhã, havia alguns senhores e senhoras de idade, um menino com o braço quebrado e uma moça acompanhada do seu pai. A espera por atendimento na recepção era de mais ou menos uma hora. As pessoas chegavam, entregavam a carteira do plano de saúde e a identidade, sentavam-se para aguardar serem chamadas e preencher uma ficha, para então aguardar pelo atendimento.

A moça, Marina, estava ali com dor na coluna lombar que aparentemente surgiu do nada, mas já era velha conhecida. Ele teve um episódio de crise aos vinte e poucos anos que agora, aos quase trinta, parecia que ia se repetir. Tentou normalizar as costas com remédios que já tinha tomado antes, mas não sabia qual a quantidade de cada medicação, e depois de alguns dias sentindo dor sem melhora resolveu se consultar.

Conseguiu que o pai a levasse em uma clínica especializada, porque o marido estava preocupado demais com o que as pessoas do trabalho iam pensar dele “filar” o horário para acompanhá-la no médico. O pai que morava em outra cidade tinha uma visita programada para o dia e se ofereceu para levar a filha que até o momento iria sozinha.

Marina pensou a sorte que tinha de ter sempre o pai por perto, mesmo nos episódios de crise de coluna e labirintite anteriores, ele sempre foi a pessoa que esteve do seu lado em atendimentos médicos.

Quando foi chamada, ela entrou sozinha. O setor de atendimento nada mais era do que um corredor com 12 biombos forjando paredes que dividiam salas. Seguiu para a sala 8, como tinha sido direcionada. Levou consigo seus remédios automedicados e aguardou o médico terminar de atender o paciente da sala ao lado. No “consultório” havia uma maca com aspecto frágil, de que qualquer pessoa mais pesada pudesse a derrubar, uma cadeira sem braços troncha e uma mesa pequena com um computador. Sentou-se na cadeira troncha porque tinha encosto, ficar em pé piorava a dor nas costas.

O médico entrou na sala e Marina achou esquisito porque a voz que ela estava ouvindo atendendo o paciente anterior era de alguém bem mais velho. “Oi, tudo bem? Eu vou pedir que você se mude para a cama”, ele disse. “Eu só sentei aqui por causa da dor nas costas”, ela explicou enquanto saía da cadeira em direção à maca.

“Estou sentindo dor na lombar. Faço pilates e funcional mas me machuquei numa semana em que estava parada, não sei como. Talvez tenha sido a cama da casa de meus pais. Já estou tomando um anti-inflamatório e esse relaxante muscular, e eu trouxe aqui um spray que minha mãe me deu pra passar”.

O médico ficou confuso e irritado, ela era mais um desses pacientes que chegam medicados. Observou bem a moça que apesar dos olhos cansados e da coluna torta não deveria ter mais de 25 anos. Conferiu pela primeira vez a ficha e viu que tinha 29. “Você tem alguma alergia a medicação?”

“Muitas. Anotei aqui para te dizer”, e passou um pedaço de papel com cinco substâncias escritas.

“Bom, pelo o que você está me descrevendo, parece que sofreu algum impacto” e como você tem alergia a um bocado de anti-inflamatório, vou te passar uma injeção de corticoide e um exame de raio-x pra gente fazer agora e ver se não tem nada de errado.”Mas eu não vou ter nenhum piripaque aqui não, né? E se eu tiver alguma alergia à injeção? Você sabe.””Não deve, mesmo porque esse medicamento é usado justamente no tratamento de alergias. E caso você tenha, já está num hospital” – ele acrescentou dando uma risadinha nervosa.

Ela fez que sim com a cabeça. Como costumava tomar corticoide para curar as alergias e percebeu logo depois que tinha falado besteira por excesso de precaução. Lembrou que a própria mãe tinha falado a mesma coisa para outro médico sobre outra substância em outro momento de internação da garota, ela tinha medo que Marina tivesse algum choque anafilático por conta de uma injeção. Pensou que não devia estar sozinha no atendimento.

Então o médico foi saindo da sala rumo à impressora para fazer as prescrições, e minutos depois chegou um enfermeiro. Ele conferiu com a garota o nome e a substância da injeção e começou a preparar a aplicação. Marina foi ficando nervosa porque estava sozinha, e quando o enfermeiro começou a fechar a cortina da sala para aplicar o remédio nas nádegas, seu pai apareceu.

“Que demora. Fiquei preocupado.”

Ele ficou do lado de fora aguardando o procedimento, mas Marina preferiria que ele tivesse entrado. Agora ela se via com meia bunda de fora, sozinha com um estranho numa sala fechada. A situação era bastante desconfortável e ela preferiu ficar em pé “por causa da dor nas costas”. Ela achou que o enfermeiro tinha se animado com a situação, mas fez questão de mostrar que para ela aquilo tudo era bastante desconfortável — só queria que acabasse logo.

Terminado o procedimento, Marina pegou a ficha e voltou com o pai para a sala de espera. Aguardou poucos minutos até ser chamada para fazer o raio-x e logo foi parar em outra sala de atendimento, dessa vez com paredes de verdade, uma cama de metal e a máquina para radiografia dos ossos. Com roupa (exceto o sutiã), deitou no lugar certo, prendeu a respiração. Virou de lado, predeu a respiração e pronto. Pegou a ficha e voltou para a recepção, para aguardar o resultado e prognóstico do médico.

Agora a recepção estava lotada de idosos, não tinha uma só cadeira ou sofá para sentar e aguardar. Teve que sentar em um sofá tenebroso que encontrou no corredor, que afundava e forçava ela a se equilibrar, deixando a coluna doendo. Quinze minutos de espera e ela foi chamada novamente. Agora a injeção já fazia efeito e ela sentia alguma melhora apesar do assento. Atravessou o o mar de gente e voltou para o box 8. Aguardou o médico aparecer sentada na maca.

Com uma cara melhor, ele se sentou na cadeira e começou a explicar. “Então, Marina, não tem nada de errado com a sua coluna. Aqui nesse exame, ela apareceu um pouco retificada mas imagino que seja pelo espasmo que você estava sentindo. Você tem algum caso de problema de coluna na família?”

“Não que me lembre”, respondeu.

“Pois bem, eu não vou mexer em time que está ganhando. Como você tem muitas alergias e anti-inflamatórios, vou prescrever os mesmos remédios que trouxe. Vou te dar também um pedido de ultrassom, caso você continue sentindo a dor, faça e marque uma consulta. Falta só o seu atestado. Vamos ali imprimir tudo”.

No corredor, ao lado da impressora, ele explicou a posologia dos medicamentos e entregou os papéis para a moça que já estava com melhor humor porque a dor aliviava. Ela fez “obrigada” e deu um aceno de cabeça. Era intencional, não eram palavras sem sentindo. Naquele lugar esquisito, naquela situação ruim, ela agradeceu a ele por ter tido paciência e a Deus por ter conseguido sair dali atendida e medicada em duas horas.

A única certeza

Há momentos da vida em que é preciso ter a sensação que você está prosperando, indo de encontro a tudo o que lhe prometeram e lhe é cabido. Mas quando você rema, rema e não sai do lugar, como lidar?

Foi assim que Fabrício estava se sentindo depois de ter recebido um telefonema que o deixou sem chão por alguns segundos. Aquele estava sendo um dia exaustivo, ele passou a manhã numa reunião improdutiva que só lhe rendeu um pensamento “quanto dinheiro parado”. Foi ideia dele chamar o cliente para conversar porque não era possível que o pagador estava “teimando em fazer errado”. Queria explicar a melhor forma de resolver o problema, mas durante a conferência o cliente fingia que concordava com tudo o que ele dizia e depois desmentia com a própria vontade.

Cansado de bater com a cara na parede, Fabrício pediu o fim do encontro e lavou as mãos. Não queria gastar mais energia naquilo em que não levaria a lugar nenhum, o cliente novo no cargo não entendia muita coisa do negócio e chegou ali querendo mostrar serviço, reinventar a roda. “Deixa ele se estrepar”, pensou. Às vezes as situações de trabalho vão além do fazer o melhor ou simplesmente fazer a coisa certa, há antes o fazer a vontade.

Foi almoçar despreocupado, apesar de contrariado. Ele tinha todo um projeto para o cliente mas não trabalhava para uma empresa própria e por isso, não tinha a palavra final. Mas isso era bom porque no fim das contas era apenas um intermediário que estava ali para resolver um problema, não era o responsável por gerir o negócio e no fim das contas podia soltar o bom e velho “eu avisei”.

Mas na volta do almoço, já sentado em sua mesa de trabalho, recebeu a ligação pela qual estava esperando há alguns dias. Era o feedback de uma proposta que tinha feito para um possível cliente da sua empresa pessoal. Um projeto bacana que iria alavancar seu nome, o primeiro passo para sair do emprego atual que já desempenhava há 7 anos, sem novas perspectivas de crescimento. Mas não deu certo.

“A gente gostou muito do seu projeto, mas resolvemos seguir com outro que também estávamos avaliando”. “Sim, claro, caso a gente queira fazer algo menor voltaremos a entrar em contato”. “Muito obrigada pelo seu tempo e disponibilidade”.

Como lidar com tamanha frustração? Como segurar a insegurança que se abateu depois para os colegas? Ele tinha recebido mais um não. Um não que reduziu as metas que ele tinha definido a sonhos não alcançados, e como ele odiava viver de sonhos. Gostava muito mais do que era realidade palpável, mensurável, tangível. Não sabia como continuar aquele dia além de lidando com os assuntos insossos do trabalho. Sem pensar muito, sem remoer o assunto, apenas seguindo em frente aguardando que outra coisa surgiria e que um dia tudo daria certo de alguma forma. Ele só tinha certeza da mudança.