Preocupações

Há doze anos eu crio uma ursa bastante felpuda chamada Miusha. Ela é esperta, não vai com a cara de todo mundo, morde e late de forma irritante quando se sente ameaçada, mas é um dengo só quando quer atenção. A gente costumava dormir juntas mas, depois que eu passei um ano ela fora, ela foi dormir com meu pai. Agora ela está idosa e eu começo a me preocupar por quanto tempo mais terei a sua companhia.

Há dois meses Ushinha está com complicações no mecanismo de defesa – os exames mostram baixa hemoglobina – por causa de alguma bactéria que ainda não descobrimos qual nem conseguimos acertar no tratamento. Nesses últimos dias, estamos realizando mais exames e buscando entender o que está acontecendo – e eu comecei a ter pesadelos.

Sonhei que eu aparava os pelos dela com uma tesoura e a cortava sem querer. Desesperada, saía correndo e voltava com um gelo para colocar na suca cabeça. Mas aí (começou a parte macabra) o focinho dela caía na minha mão e eu ficava olhando para a minha au felpuda sem o nariz. Acordei transtornada e dizendo para ela “me perdoe, me perdoe”.

Desde então eu só me preocupo. Me preocupo se vou conseguir tratá-la à tempo, se vou conseguir encontrar o medicamento certo, se ela está sofrendo de alguma forma que eu não sei, se eu devia ter feito algo antes – eu tentei, mas não funcionou. Toda essa preocupação me deixa em constante baixo astral e está influenciando outras áreas da minha vida. Mais do que nunca, eu me sinto só.

Luc Ferry diz que mais importante do que felicidade é a serenidade conquistada após vencermos o medo. “É o medo que nos torna egoístas e nos paralisa, que nos impede de sorrir e de pensar de forma inteligente, com liberdade.” O filósofo aponta que entre os três grandes medos da humanidade (timidez, fobias e medo da morte), o medo da morte é causado pela irreversibilidade da vida, aquilo que ele chama de “nunca mais”. “Tememos mais a morte de pessoas que amamos do que a nossa própria”, ele diz.

Me parece que estou tendo uma experiência de morte, antes mesmo dela acontecer. Imaginando o nunca mais, estou perdendo a minha serenidade, dando espaço para o medo e aumentando o meu desconforto sobre algo que eu só deveria sentir quando se tornasse real. Sei que de nada adianta eu me preocupar agora, só posso tentar me convencer de que estou fazendo tudo ao meu alcance para que ela fique bem. Por enquanto, tenho que aguardar uma semana para sair o resultado dos exames e, então, saber qual o passo seguinte para a cura.

Alguém igual

Sem conseguir dormir, Flavinha passeava pelo feed do Instagram às duas da madrugada, quando se deparou com um meme que lhe provocou uma gargalhada desgovernada. Queria compartilhar com alguém, mas quem? Ultimamente estava bastante afastada das amigas da faculdade, só trabalhava e voltava para casa. Sua mãe não iria entender. Seu namorado poderia levar para o lado pessoal. Ficou angustiada, não tinha para quem enviar a piada. Acabou mandando para uma colega de trabalho com quem se dava ultimamente e compartilhava o mesmo humor. Não eram próximas, mas ela riria.

Foi aí que a madrugada pareceu não ter fim. A moça pensou que volta e meia sentia-se sozinha, por mais que estivesse acompanhada. Na escola, quando todos os amigos gostavam das mesmas músicas e festas, ela não suportava. Odiava a bebida e as danças salientes. Achava uó. Na faculdade, quando todos gostavam das mesmas coisas, ela não gostava das pessoas. Não teve conexão instantânea com ninguém e achava que o grupo recém-formado forçava uma intimidade e alegria que não existiam. Não ia às festas. Agora, trabalhando, com colegas que ela considerava família, não tinha com quem conversar sobre os assuntos que lhe tiravam o sono.

Certa feita, um amigo com quem tinha acabado de ter uma discussão lhe disse “na sua vida, todo mundo vai te decepcionar. Você vai ter que aprender a seguir em frente”. Aquelas palavras voltavam à sua memória naquela noite, tinha brigado com a mãe pelo telefone, não queria continuar pensando nas palavras duras que acabou dizendo. Agora se sentia muito só. Ficou pensando que se encontrasse alguém como ela na rua, alguém com as mesmas preocupações, defeitos e qualidades, saberia lidar consigo mesma e não se sentiria sozinha. Essa mesma pessoa, por ser alguém que levava em consideração o bem-estar de quem está do lado, não seria egoísta nem leviana com seus sentimentos. Essas eram características que ela sabia que existiam em si, que admirava em si.

Ao mesmo tempo pensou que há dias em que nem ela mesma se aguenta. Tanta cobrança por perfeição, tanta exigência em sair tudo do jeito que ela acha que deve ser, que sufoca a si mesma. Pensou que estar do lado de alguém que não gosta de perder o controle exigiria muita paciência, e resolveu tentar não se importar mais com o que não podia controlar. Não se importaria tanto com a conversa com a mãe, por hora ia tentar tirar a cabeça daquele problema e dormir, no dia seguinte mandaria uma mensagem pedindo desculpa. À noite, quem sabe, tentaria falar por telefone novamente.

Ali, sozinha na madrugada, chegou à conclusão que não resolveria ter pessoa igual a si mesma para se fazer companhia. Ela sabia como era bom ter alguém com quem dividir um meme engraçado na internet, como era bom ter com quem desabafar quando alguma coisa não estava dando certo como imaginava, como era bom ter com quem rir enquanto esperava que os problemas se resolvessem porque ela já não podia fazer mais nada. Mas todo mundo um dia se frusta com todo mundo, às vezes a culpa seria dela mesma, e ela teria que aprender a viver com isso. Resoluta, foi dormir. Sabia que não tinha resolvido nada da própria vida, mas tinha resolvido a forma como encararia os próximos dias e essa confiança bastava.

Equilíbrio entre arte e trabalho

Entrei na faculdade de jornalismo com a esperança de um dia ser colunista do jornal A Tarde, na época o maior jornal da cidade de Salvador. Com o tempo meu sonho foi se despedaçando junto com a estrutura física e intelectual do jornal que se viu atolado em dívidas e perdeu espaço para a internet.

Quando eu saí da faculdade eu já trabalhava numa organização não governamental que abastecia um site de notícias sobre sustentabilidade, mas não conseguia fechar contratos para se manter funcionando. Eu amava fazer entrevistas com voluntários e escrever sobre as últimas novidades do mundo sustentável, mas recebia pouco e sabia que não teria uma carreira na empresa – então, meu pai me convenceu que era a hora de fazer um mestrado fora.

Fui e voltei de uma das piores/melhores experiências da vida completamente mudada, sem saber qual era o meu lugar nesse mundo velho/novo após o vazio que deixei aqui no Brasil. Tive que retomar tudo de novo, mas não via mais futuro no jornalismo e acabei entrando para a publicidade digital. Na vida, às vezes a gente escolhe e às vezes é escolhido. Foi assim comigo e com a publicidade, eles precisavam de mim e eu não tinha para onde ir. Desde então faço conteúdo para marcas.

Mas a minha paixão por contar histórias continua acesa e de vez em quando sai como em pequenas explosões do meu corpo para o mundo, como se eu precisasse desengasgar o motor da máquina para continuar funcionando. Nem sempre tenho coragem de publicar tudo o que escrevo, mas estou começando a me adaptar à exposição para continuar produzindo e melhorando. Vejo como um exercício para eu sinta orgulho de mim mesma, caso algum dia consiga tocar as pessoas com minhas ideias.

Mas, se contar minhas histórias são desengasgo, o meu combustível é o trabalho do dia a dia. Para mim, nada é pior do que não estar funcionando corretamente e ter um ofício é muito importante para manter a mente sã – além de pagar as contas! As duas coisas não podem existir separadas, sem uma a outra se torna insuportável. Foi aí que eu achei o meu equilíbrio.

É claro que tem dias que o trabalho do dia a dia suga todas minhas energias. É claro que eu preferia trabalhar sem tantas cobranças de chefe, cliente, colega de trabalho, eu mesma. Mas esse modelo de trabalho-vida-real que encontrei me mantém com os pés no chão e me dá até mais gás para organizar e produzir meus textos. A cada semana eu planejo o que vou escrever e publicar nas redes sociais do meu blog, planejo os horários disponíveis para fazer cada parte do processo, e assim vou publicando e divulgando um a um. Essa sistematização me deixa livre para poder fazer tudo o que quero fazer além: exercícios físicos, ver filmes e séries, ler alguma coisa.

A garota que achou que seria escritora/colunista do maior jornal da cidade encontrou um jeito de continuar realizando seu sonho. A fama e o dinheiro almejados podem não chegar, mas nem por isso estarei menos realizada. Quem sabe um dia eu volto para o jornalismo. Até lá sei que ele ainda vai se transformar muitas vezes, até encontrar seu próprio equilíbrio nesse mundo que muda completamente todo o tempo.

Como vou encarar 2019

Cheguei a uma conclusão sobre 2019 antes mesmo do ano começar. Como mulher, escritora, redatora, empresária, entendi que nesse ano vou ter que ser forte. Simplesmente porque prevejo que o caminho que percorre aquele que está à favor da humanidade não é um caminho fácil.

Não é fácil ser uma mulher em meio a sociedade que vivemos, como também não é fácil ser homem ou trans. A violência, o assédio e a preterência em relação aos que tiveram sorte de ser privilegiados é algo enfrentado por todos os sexos, em seus diversos graus. Há sempre alguém à frente.

Por isso falo com toda a certeza de que 2019 não será fácil. Não para quem tem ambições, para quem quer sair do lugar, para quem está insatisfeito. Mas eu pretendo encarar 2019 de frente.

Se, assim como eu, em algum momento da sua vida você foi levado a crer que é especial e realizará grandes feitos, eu sinto muito. Os filmes de amor, as histórias dos grandes pensadores, os cases de sucesso dos influenciadores digitais, todos eles nos iludiram. A vida de ninguém é especial, a vida de todo mundo é ordinária. Até os que tiveram a chance de vislumbrar a Terra do lado de fora sofrem.

Há doenças – elas são as piores -, há inveja, há melancolia, há medo, e outros incontáveis sentidos que nos lembram diariamente que somos feito de carne e osso, apesar do como a nossa mente nos imagina. Por isso temos que ser fortes.

Vamos precisar perseverar para conseguirmos o que queremos e talvez não chegaremos lá, mas é preciso fazer o caminho valer a pena. É preciso que tenhamos cuidado para transformar o percurso da vida diária menos pedregoso. Cuidemos de pavimentá-lo pouco a pouco, com nossas esperanças colocadas em prática.

Gosta de Netflix? Assista. Gosta de ir à praia? Tome seu banho. Gosta de conversar com os amigos? Saia de casa! É preciso levar a sério o que nos faz sentir bem, porque na maior parte do tempo estaremos apenas sobrevivendo a um dia, uma semana, ou um mês mais ou menos. Precisamos nos empenhar para que 2019, apesar de mais ou menos, seja cheio de momentos felizes.

Quem sabe assim, vistos de longe, como numa avaliação geral do ano, esses momentos nos façam ter a impressão de que tivemos um ano exemplar.

Cinema

Entrar numa sala de cinema nunca é uma decisão que eu tomo de forma displicente. Primeiro porque o ingresso não é barato, segundo porque os dias e as noites estão tão corridos que não posso mais me dar o luxo de gastar duas horas da minha vida numa bobagem. Tem que ter um propósito. E, invariavelmente, as minhas ultimas idas ao cinema têm apenas um propósito: me distrair.

Eu não escolho mais assistir filmes tristes. Eu não escolho mais filmes dramáticos cotados ao Oscar. Eu quero aquele filme comédia romântica que vai me fazer ficar nas nuvens por uma hora e meia. Eu quero aquele filme de magia que vai me levar para Hogwarts e enfrentar o mal ao lado de animais fantásticos. Eu quero felicidade.

Ir ao cinema, para mim, é mais do que diversão. A tela abre uma janela para outra vida e eu tenho a oportunidade de viver outra história, de abandonar meus problemas por alguns minutos – do lado de fora. Ao fim da sessão eu já nem lembro o que estava me preocupando antes. Saio de alma lavada ainda em êxtase e na companhia dos personagens. Eu acho que é pra isso que os filmes existem, para nos dar uma energia extra no jogo da vida.