ARTE E VIDA REAL SE CONFUNDEM QUANDO SE VIVE UM SONHO

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Paulo ou Magnólio? Qual nome chamar? “Você sabe que todo palhaço vive um personagem e também a própria vida, não é? Mas eu já não faço mais isso, o meu personagem e a minha vida se misturam e eu já não sei quem é quem.” Nem ele próprio sabe quem responde às perguntas. Dito isso, Magnólio caiu na gargalhada.

À primeira vista esse pensamento não seria tão engraçado, se ele mesmo não fizesse daquilo uma piada. A risada rouca de Magnólio provoca um riso involuntário no ouvinte e dá espaço para que mais assunto seja puxado. Essa conversa em específico tomava rumo no trajeto de vida desse homem que vive para provocar alegrias e consciência social àqueles com quem se relaciona.

Paulo Roberto Sposito ganhou o apelido de Magnólio quando ainda era estudante. Por ter uma voz muito rouca, ele foi comparado a um personagem de novela com o mesmo timbre e, com o passar do tempo, o apelido virou hábito e absorveu variações. Magnólio virou artista de circo, um artista que vive encarnando seu papel a cada dia de trabalho na organização Saúde e Alegria, na floresta amazônica do Pará.

A organização existe há 35 anos. O principal objetivo daqueles que dela participam é promover o desenvolvimento sustentável dos municípios Belterra, Aveiro e Santarém – que ficam em uma região chamada de Médio Amazonas, na confluência dos rios Amazonas e Tapajós.

Conheça a história inspiradora desse paraense que já conheceu todos os estados do país enquanto ensinava o modelo educativo utilizado na promoção da saúde dos cerca de 30 mil ribeirinhos do Pará.

Quando você começou a realizar trabalhos sociais?

Magnólio: Desde os tempos de escola, quando participava de movimentos e associações juvenis, mas o interesse de fazer disso o meu trabalho surgiu quando eu trabalhei no escritório de advocacia trabalhista da minha família. Eu, meus sete irmãos e meus pais cuidávamos de ações de operários contra patrões e eu percebi que esse poderia ser o caminho da vida.

Mais tarde eu fui para São Paulo fazer aulas de técnicas circenses na Academia Piolim de Artes Circenses, fui da primeira turma que formou na escola, e daí fiz um curso de serviços sociais. Essa minha formação maluca permitiu que eu agregasse conhecimento de várias partes e pudesse aplicar na Saúde e Alegria.

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Magnólio em palestra no Fórum Amazônico de Cultura Digital, em 2009/Foto: Acervo pessoal

Quais são as suas atividades dentro da ONG?

Quando eu conheci o pessoal da ONG eu recebi uma proposta de trabalho comunitário, por meio da educação e o desenvolvimento da comunidade com o uso do lúdico. Como eu tenho formação no circo, o meu trabalho é deixar o conhecimento mais simples e dinâmico possível para que as pessoas realizem as ações de forma mais prática. Eu acredito no poder das pessoas de simplificarem as coisas e é com isso que eu conto quando dou uma palestra.

Você ainda visita hospitais e escolas?

Sim, mas somente para treinar e disseminar a metodologia que faça as pessoas entenderem que falar de saúde não é falar de doença. Normalmente, as pessoas têm o péssimo hábito de encarar a saúde como estar doente ou não, quando te perguntam “E aí, Fulano, como você está?” e você responde “Estou saudável, então está tudo certo…”. Saúde é mais do que isso. A saúde é vida. O corpo é um mecanismo orgânico inteiro de saúde mental e do corpo interligadas. Não há várias ciências de estudos do corpo e da mente, a ciência é uma só que se reparte para facilitar a pesquisa.

Hoje eu posso somar cerca de 2.000 palestras por ano, para diversos públicos: professores, pescadores, empresários, agentes pastorais… A gente trabalha com o desenvolvimento integrado entre vários setores da sociedade, tratando de abordagem holística da saúde, motivação e, sobretudo, ALEGRIA.

Como surgiu a Saúde e Alegria?

Eu entrei na ONG em 1989, mas ela já existia desde 1985. O fundador, Eugênio Scannavino Netto, já era médico quando veio de São Paulo para atender às comunidades ribeirinhas da amazônia paraense distribuindo cloro para o combate à diarreia e desenvolvendo ações para diminuir o alto índice de mortalidade infantil. Nesse mesmo ano, ele e a educadora Márcia Silveira Gama fizeram um trabalho piloto em parceria com a prefeitura de Santarém e então me chamaram para o CEAPS – Centro de Estudos Avançados de Promoção Social e Ambiental, mais conhecido como Saúde e Alegria.

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Magnólio é o palhaço no topo da embarcação/Foto: Caetano Scannavino/Saúde e Alegria (Divulgação)

De lá para cá o projeto se desenvolveu e atende a diversas demandas da comunidade ribeirinha da região de Santarém. Quais são as ações?

O projeto foca nas ações relacionadas à organização e gestão comunitária, com educação para a cidadania, apoio à gestão e o desenvolvimento territorial, associativismo e cooperativismo, e assessoria aos movimentos sociais. Também realizamos ações relacionadas à economia da floresta, ligadas às questões de segurança alimentar dos ribeirinhos, agroecologia, energias renováveis, ecoturismo de base comunitária e artesanato sustentável.

Uma área que eu trabalho diretamente é a ligada às questões de saúde comunitária, sobretudo na educação e prevenção em saúde, higiene e saneamento. Além da questão educativa, nós realizamos ações para a saúde da família e o monitoramento epidemiológico. Mas a ONG também realiza ações para a comunicação, educação e cultura da comunidade: nós promovemos a educação ambiental, a escola comunitária, a inclusão digital dos jovens e a rede de comunicação comunitária, chamada Rede Mocoronga.

Além da Saúde e Alegria, você possui outras ocupações?

Toco com minhas filhas o Acampamento Experimental Sítio do Sobrado, em São Paulo. Ele é experimental porque mudamos a metodologia das atividades de educação ambiental e social a cada temporada. É um trabalho de resgate da natureza com jovens paulistanos que vivem enfurnados no computador.

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Ele ainda mantém uma empresa de assessoria e um acampamento de férias/Foto: Acervo pessoal

Qual a sua motivação para continuar na ONG?

Eu continuo na ONG porque, primeiro, o meu trabalho na Saúde e Alegria ainda não terminou. Além disso, é muito gratificante e divertido participar disso tudo porque envolve pessoas transformando estruturas sociais vigentes por puro amor à espécie humana. Eu trabalho naquilo que eu gosto e com aquilo que eu sonho.

Em minhas palestras eu costumo citar Pablo Neruda com a frase “para fazer um jardim você não precisa ser um botânico, basta gostar das flores”. É mais ou menos assim: para fazer um trabalho comunitário você não precisa ser especializado em serviços sociais, basta gostar de gente.

Mas a minha motivação maior são as minhas filhas. Eu quero ser para elas um exemplo de altruísmo, de promoção ao bem-estar social e de alegria.

*Matéria publicada originalmente no portal EcoDesenvolvimento.org

A ARTE CONTRA O FLUXO SOCIAL DO LIXO

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Jaime Prades aprendeu a questionar o papel do artista na sociedade ainda jovem, quando se reunia com um grupo de amigos na década de 80, período brasileiro de transição entre a ditadura e a democracia. Com o TUPINÃODÁ, grupo paulista que realizou as primeiras grandes pinturas nos túneis de São Paulo e serviu de expoente para o movimento do graffitti que surgiria nos anos 1990, Jaime entendeu que o caminho para uma intervenção artística independe da grande repercussão e seguiu criando sua arte, sempre ligada com a natureza e a preservação do planeta.

Durante mais de 25 anos de carreira, mesmo passando por um período de estudos e projetos criados em ateliê, Jaime realizou diversas intervenções urbanas artísticas que abordam a temática do meio ambiente, sempre buscando mudar a mentalidade das pessoas frente aos problemas do mundo. Inspire-se com esse papo-cabeça de um artista que segue na contramão da sociedade.

Quando você começou a prestar atenção às questões socioambientais e relacioná-las ao seu trabalho?

Jaime Prades – Desde o início da minha carreira a motivação artística está voltada para o coletivo. Faço parte da geração que viveu a transição da ditadura militar para o regime democrático. O Brasil de 25 anos atrás era bem diferente do que é hoje, estávamos muito isolados do resto do mundo.

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Arte nas ruas de São Paulo, em 1987/Foto: Acervo pessoal

Com o grupo que frequentava, estudávamos e discutíamos alguns artistas mais irreverentes da linhagem antropofágica como Flavio de Carvalho e contemporâneos como Lygia Clark e Hélio Oiticica que nos legaram a inquietude sobre o papel do artista, o re-significado sobre o sentido da arte e o conflito entre público e privado. Quando penso no contexto desse momento e, graças ao distanciamento destes anos, percebo que foi na década de 80 que os ingredientes da transformação para uma cultura global misturaram-se com os da transformação interna que vivíamos pela conquista da democracia.

Por causa dessa realidade, ir para a rua para interferir com a nossa arte e conquistar o espaço público era o nosso maior desafio. Foi o que fizemos. A experiência das ruas nos ensinou que o caminho de uma ação artística independe de grande repercussão. Naquele momento, a arte de rua foi poderosamente transgressora e, a partir de São Paulo, criou uma nova cara para um novo Brasil.

Já na virada da década, em 1991, você realizou uma intervenção no rio Tietê. Como surgiu essa ideia?

O projeto que criei em parceria com Miguel Paladino foi escolhido pelo SESC Interlagos que tinha promovido um concurso procurando propostas para ações que chamassem a atenção para a situação dos principais rios de São Paulo, o Tietê e o Pinheiros.

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Intervenção artística às margens do rio Tietê em 1991/Foto: Acervo pessoal

Foram instaladas 80 placas com grupos de animais que viveram nas suas margens: antas, pássaros, jacarés entre outros. A repetição era um recurso para conquistar o olhar dos motoristas que passavam pela Marginal em velocidade.

Os bichos representados em preto e branco eram evocações desses seres que existiram ali quando a natureza ainda estava intocada. Essa falta de cor trouxe dramaticidade ao projeto que tocava na impossibilidade de vida nesse ambiente destruído e envenenado.

A instalação aconteceu durante os meses de Outubro e Novembro de 1991. Esse trabalho antecipou em quase 20 anos as intervenções que estou fazendo agora.

De onde vem essa insatisfação com as ações do homem sobre o meio ambiente?

Do lixo! De observar nossos hábitos coletivos com os resíduos e de como nos comportamos em relação ao que descartamos. O que vejo nas ruas das cidades é um caldo contaminado de todos os tipos de restos misturados. Pilhas com restos de comida apodrecendo juntos na rua… Pneus, sofás, armários jogados nos córregos… Bitucas, papéis, plásticos sendo varridos pelas chuvas que inundam tudo por causa dos bueiros entupidos de lixo… Merda de cachorro dentro de plásticos fechados apodrecendo ao sol… Restos de computadores, móveis, entulho, papelão, triturados e misturados com material orgânico nas caçambas urbanas… Madeiras, muita madeira no lixo, o que sobra das nossas florestas… E, também vejo gente jogada no lixo.

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Prades utiliza restos de madeira em suas esculturas/Foto: Acervo pessoal

Como você enxerga a posição da população frente a isso? Você acha que as pessoas não se sentem responsáveis por toda essa sujeira no mundo?

A questão é que as pessoas maltratam muito o espaço coletivo, e acabam maltratando um espaço que é delas. Uma das minhas grandes questões é por que a gente tem tão pouco carinho pelo coletivo. O lixo reflete essa questão das pessoas sobre o que fazer e como se comportar com o meio ambiente, porque não é algo que se possa jogar a responsabilidade para terceiros. É uma questão de sem informar e pensar na reciclagem e na redução do desperdício de materiais como ações positivas para a própria pessoa.

O hábito de jogar lixo na rua é algo muito agressivo. Eu gostaria que a cidade fosse limpa, mas é impressionante a quantidade de lixo que se encontra. Acabei de passar hoje aqui na pracinha ao lado da minha casa e catei coisas que estavam jogadas no chão.

Você acha que essas ações de conscientização devem partir dos cidadãos ou de organizações e governo?

Acho que devem ser ações do governo, de cidadãos, da família, de todos. É algo gerado pela ausência de ações em todos os níveis, desde o pai que tem o hábito de jogar as coisas em qualquer lugar, ou uma família que já nasce no meio do lixo porque é pobre, ou por arrogância, daquelas pessoas que têm dinheiro e também desprezo por outras pessoas.

A coleta seletiva precisa ser estruturada e implantada a nível nacional. A sociedade civil tem que se organizar em torno dessa questão e lançar esse desafio aos governos federal, estaduais e municipais. É uma grande oportunidade de criar consciência e ação ambiental a partir da realidade mais próxima de cada um. A reciclagem deveria ser tema prioritário com grandes campanhas nacionais educativas de separação e compostagem caseira. Qualquer cidade pode produzir milhares de toneladas de composto orgânico caseiro que poderia ser utilizado para adubar terras infertéis, recuperar áreas de florestas etc.

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Intervenção na periferia de São Paulo, em 2007/Foto: Acervo pessoal

Me parece que as grandes questões ambientais como o aquecimento global, a elevação dos oceanos, o desmatamento, as queimadas, a contaminação da água, da terra e do ar, as fontes de energia suja, dos agrotóxicos, dos transgênicos, só para citar algumas, são problemas numa dimensão tão grande que parecem insolúveis, ou que a solução virá de algum lugar inacessível para os comuns mortais – o que impede qualquer tipo de ação dos mesmos. E, assim estamos olhando os jornais, as TVs, a Internet assistindo o mundo através de alguma lâmpada. Esse “mundo” visto através dos monitores cria uma sensação de “segurança” que, contraditoriamente, ao mesmo tempo em que nos mantém tensos, nos perpetua no papel passivo de plateia.

Como esse modo de ver o mundo afeta você?

Eu praticamente virei um lixeiro, passo o dia recolhendo as coisas na rua, nas praias. Em vez de ficar ali xingando alguém e emanando energia negativa, eu vou e cato. E isso reflete também no modo como as pessoas te tratam, elas chegam e param para conversar, há uma troca de carinho, compaixão e amor. Porque no fundo, somos todos vítimas de nós mesmos.

Quando eu comecei a fazer um trabalho aqui na esquina ao lado da minha casa, a gente criou uma rede, um vínculo entre os vizinhos. Eu passei a conhecer quem morava ao meu lado, passei a frequentar a residência de outras pessoas, estabelecemos um relacionamento. O resultado disso é que as pessoas passaram a ter identidade, a ter nomes, a serem reais.

Toda essa questão de ir contra o fluxo social está ligada também com o que eu tento fazer com a minha arte. Essa limpeza e tentativa de conscientização que eu faço nas ruas é um reflexo do que eu busco para a minha vida, um modo de fazer uma limpeza também interna. Por exemplo, nem eu nem minha mulher comemos bicho. Nós percebemos que a comida que a gente come interfere no modo como a gente pensa. Já faz um tempo que não comemos carne e, assim, nos sentimos mais leves.

E essa é a hora de começar a agir. Para mim, a gente vive em um momento que se alguém tiver que fazer alguma coisa para fazer ou para dizer, faça e diga, porque é urgente.

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Esquina da Rua Soledade/Foto: Acervo pessoal

Em 2007, quando voltou às ruas para fazer uma intervenção na esquina de sua casa, Prades passou a relacionar a sua arte com a busca por um desenvolvimento crítico social. A partir daí realizou algumas ações periódicas.

“Esta esquina perto de onde moro é um típico “espaço residual urbano”. É uma sobra de terreno que pertence à prefeitura, que não tem nenhum projeto de conservação desse tipo de área e as abandona sem promover o mínimo cuidado. Na época, em 2007, um grupo de moradores de rua acampou ali durante sete meses. Eles se mudaram, graças a ação de uma jornalista vizinha que fez com que uma incorporadora comprasse uma casinha para eles na periferia. Mas o espaço foi tomado por comerciantes e virou novamente depósito de lixo e entulho de pessoas que passavam por ali, e também de alguns moradores.

Quando os moradores de rua ainda estavam na esquina, alguém ateou fogo nos colchões que eles dormiam, colocando em risco a vida do casal que morava na casa ao lado. Eles acordaram com o gás, em plena madrugada, mas conseguiram sair e chamar os bombeiros.

Depois desses acontecimentos a esquina estava um lixo. Parecia um ser ferido, um retrato do descuido de tudo que é coletivo, do que é público. Decidi intervir. Meu primeiro ato foi retirar o entulho e cuidar da árvore que ficou seriamente ferida pelo incendio. Negociei com os comerciantes que a usavam e comecei a retirar o lixo diariamente. Em seguida fiz um grafite para dar uma “levantada” no lugar que rapidamente ficou muito diferente.”

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“Abrimos alguns canteiros, trouxemos terra e plantamos muitas mudas. A maioria delas foi roubada… Um pé de Mirra e dois tipo de Boldo resistiram e crescem protegidos pelo Chapéu de Sol que sobreviveu ao fogo. Um dia tive a ideia de pendurar perguntas escritas em uns pedaços de papelão que jogaram lá. Batizei a esquina com o nome de “Árvore das perguntas”. Para contrastar com o lado lúdico dos desenhos, as perguntas eram fortes: “Porque tanta carência e tanto desperdício?”, “Qual o alimento da sua alma?”, Porque tanto descuído com o que é comum?” eram algumas delas.

Gilberto Dimenstein, colunista da Folha de São Paulo, soube do que estava fazendo e escreveu um artigo no jornal. A partir daí a esquina viveu seus 15 minutos de fama e as questões repercutiram para muita gente. Nesses quase três anos, tirei muito lixo de lá. Este é um pequeno exemplo do poder que temos de agir e trazer transformação com arte e criatividade. A vizinhança adora a esquina e criou uma discussão muito grande aqui no bairro.”

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“A partir dessas ações meu trabalho foi mudando. Minha motivação como artista foi se comprometendo com as questões envolvidas na dinâmica coletiva. Não tenho dúvidas que a crise ambiental que vivemos tem origem na falta de compreensão profunda sobre o que é a Vida, sobre o milagre de estar vivo e do equilíbrio da Natureza.

Essa “correção de rumo” que aconteceu com meu trabalho a partir da consciência e da ação resultou numa segunda intervenção urbana: As Lixeiras da Terra ou A Terra no Lixo. Adesivei uma série de ícones em 200 lixeiras da cidade de São Paulo, escolhi algumas avenidas importantes e as áreas centrais.”

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“Nas minhas andanças pelas ruas sempre percebi a quantidade de maderia jogada nos lixos, caçambas e nas ruas da cidade. Sob o meu olhar eu via os restos de árvores trituradas, mastigadas, que no seu último suspiro morriam publicamente. A partir desse momento decidi trabalhar com essas madeiras, para resgatá-las desse destino indigno. Criei o projeto Natureza Humana, que consiste em construir esculturas de árvores com essas madeiras catadas nas ruas. A primeira escultura que fiz foi no Festival de Inverno de Bonito, no Mato Grosso do Sul. Em setembro passado fiz a exposição Matilha Humana, na Matilha Cultural em São Paulo.”

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*Matéria publicada originalmente no portal EcoDesenvolvimento.org

O LUTHIER DA FLORESTA AMAZÔNICA BRASILEIRA

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Há doze anos Rubens Gomes era um professor do Centro de Artes da Universidade Federal do Amazonas inconformado com a situação de violência das periferias de Manaus. Um dia, o luthier resolveu trabalhar junto à comunidade e buscar resolver o problema juvenil da comunidade de Zumbi dos Palmares II, suas perspectivas eram dar um rumo à vida daqueles adolescentes carentes.

No primeiro dia de aula de lutheria eram esperados 20 jovens, mas chegaram 40 da escola estadual vizinha ao projeto. Com o passar do tempo, a Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (Oela) cresceu e agregou outras responsabilidades, e Gomes teve que se desdobrar para gerir tantos projetos sociais. Ele não fez isso sozinho, atualmente conta com a ajuda de um grupo “pequeno, mas altamente comprometido”, entretanto é preciso ter amor para continuar por tanto tempo de dedicação.

Conheça esse luthier que mobilizou mais de 40 mil atendimentos a jovens de comunidades da Amazônia brasileira e ainda tem vontade de continuar a trabalhar pelo desenvolvimento sustentável do local.

De onde veio essa vontade de ajudar a comunidade?

Rubens Gomes: Eu me comovi com o volume de informações negativas que os jornais publicavam diariamente. O fato me chamou mais atenção, na época, foi o uso do terçado (uma espécie de facão) que os adolescentes usavam como arma. Os confrontos geravam um grau de mutilação terrível, quase sempre com perdas de membros.

Quando resolvi conhecer a região, encontrei uma falta total de presença de Estado, e pude entender o que levava aqueles adolescentes a se juntarem no que eles chamavam de “galeras”. Era a forma de se defenderem, de cuidarem de seu espaço coletivo. Mas, com o passar do tempo, isso foi associado ao uso de drogas e de álcool, e as disputas entre essas galeras geravam um grau desumano de violência.

Eu tinha certeza que nem todos adolescentes queriam seguir o caminho do crime, mas a falta de opção os colocava vulneráveis. A forma que encontrei para contribuir foi criando uma nova “galera” e assim estamos há 12 anos na comunidade. Muitos destes adolescentes e jovens vieram em busca da música e depois descobriram a lutheria.

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Alguns dos alunos da Oficina Escola de Lutheria da Amazônia/Foto: Divulgação

Você foi morar na comunidade de Zumbi dos Palmares após decidir formar a oficina?

Sim, eu não tinha como conhecer a comunidade se não vivenciasse o dia a dia pleno juntamente com ela. Chegar pela manhã na comunidade e sair no final da tarde não era suficiente e mais, eu não teria recursos financeiros para manter a oficina-escola na comunidade e manter outro local para morar. Teria de ser na nossa casa, no nosso atelier.

Então, eu e minha companheira da época mudamos e dividimos a casa com a oficina escola. Ficamos por dois anos até poder comprar a casa e ampliar a oficina-escola, aí nos mudamos para outra casa. Hoje a minha casa é ao lado das duas casas onde funciona o projeto.

No início dos trabalhos, houve dificuldade para colocar em prática o projeto da oficina?

A nossa chegada na comunidade foi muito bem recebida pela comunidade, as dificuldades eram inerentes a manutenção de um projeto social. Porém, fomos e ainda somos muito bem tratados na comunidade. O projeto também ajudou na auto-estima da comunidade, logo começamos a ganhar notoriedade e ser visitados por muitas personalidades locais, nacionais e internacionais.

Nos dois primeiros anos, o trabalho foi todo voluntário por mim, minha companheira da época e um ex-aluno. No ano 2000, começaram a chegar parceiros que ajudaram o projeto a ir tomando corpo.

Em que isso modificou no contato direto com a comunidade?

Nós passamos a ser uma boa referência, o respeito e a atenção pelo nosso trabalho aumentaram. A comunidade vibrava a cada chegada de celebridades, artistas globais, e pessoas de reconhecimento internacional. Recebemos a visita da Marina Silva, o que levou o prefeito da época e sua secretária de meio ambiente homenagearem a ex-ministra com a entrega da chave da cidade nas dependências da Oela, com ampla cobertura pela imprensa.

Depois tivemos a visita do príncipe Charles, evento de grande repercussão local, nacional e internacional. Ainda hoje é comum eu ser abordado na rua e receber agradecimentos pela visita do príncipe na nossa comunidade (a única visitada do estado). Além disso, da mesma forma que melhoramos a auto-estima da comunidade, também conseguimos melhorar a sua infraestrutura. O governo passou a dar mais atenção ao local colocando asfalto novo e meio fio, coisas que se faz em épocas de festividades – o que foi muito bom.

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O príncipe Charles e a duquesa Camilla visitaram a Oela em 2009/Foto: Divulgação

Com o reconhecimento ainda é difícil fazer a diferença nas comunidades atendidas pela Oela? Como vocês fazem para continuar com o espírito inicial e ainda agir pelo social?

Eu procuro manter o mesmo espírito do início: se temos de fazer, vamos fazer. Hoje a Oela tem uma equipe pequena, mais altamente comprometida com o fazer coletivo. Nós fomos convidados a participar de projetos de grandes impactos, como a parceria com o UNICEF em que coordenamos o projeto de capacitação para gestores de 156 municípios em quatro estados da Amazônia. Apesar do crescimento, a dedicação é a mesma.

A transformação social só será possível em nosso país se todos fizerem sua parte, e nós escolhemos fazer a nossa parte. Agora buscamos outros projetos, como a parceria que estamos iniciando com o Ministério dos Esportes e com a Petrobras, para construir um centro de referência em esporte. O nosso objetivo é formar atletas olímpicos – veja, em nada tem a ver com a lutheria do inicio.

Esse trabalho só é possível porque não utilizamos a mentalidade fragmentada e dicotomizada, ou especializada, que em geral se usa. Se podermos ajudar, vamos ajudar, mesmo que não tenhamos expertises, as criamos.

A Oela já ganhou alguns prêmios. O último, inclusive, o Finep de Inovação 2010 foi entregue neste mês. Para você, o que representa esse reconhecimento?

Ter o reconhecimento do MCT é muito importante para o projeto, para a equipe, alunos e parceiros porque aumenta a responsabilidade em continuar a fazer bem, correto e cada vez melhor. Do ponto de vista da tecnologia, indica que a escolha que tomamos foi correta e que precisamos continuar a avançar, partindo dos pontos avaliados para poder ajudar o maior número possível de adolescentes na Amazônia. Do ponto de vista econômico, o prêmio poderá ajudar a consolidar partes dos processos.

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No final das palestras que realiza, Gomes aproveita para divulgar os instrumentos da Oela/Foto: Divulgação

Todo esse crescimento na organização demanda viagens e tempo. Com tantos compromissos ainda dá tempo de participar das classes e oficinas, ou acompanhar o desempenho dos alunos?

Um dos reflexos desse nosso trabalho colocou a Oela em uma posição de destaque junto aos movimentos sociais da Amazônia brasileira, o que fez o movimento nos convidar a assumir a presidência da maior rede socioambiental da Amazônia que é o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), uma rede que articula com mais de 600 organizações sociais e ambientais e de direitos humanos. A agenda do cotidiano é intensa.

Nestes quase três anos de mandato, tenho dedicado presencialmente pouco tempo à OELA, vivo nos aviões respondendo e-mails, como estou respondendo este enquanto retorno de São Paulo para Manaus, mas mantenho contato constante com a equipe via internet e telefone. Tenho ficado cerca de dois dias por semana em casa, e estes são exclusivos para a OELA, sala de aula, conversas, broncas, conselhos, etc.

Qual a sua perspectiva para a Oela e os seus desejos futuros?

Somos uma referência no ensino da lutheria hoje com o novo atelier. Produzimos instrumentos musicais da mais alta qualidade pela meninada que está crescendo junto com o projeto, mas ainda falta muito na área de implantação e implementação do manejo florestal comunitário e familiar, precisamos desprender mais energia nesta área para proteger nossas florestas e gerar oportunidade para inclusão social e econômica aos povos da floresta.

Assim, creio que após o mandato do GTA (maio 2011), vamos intensificar as ações para viabilizar e ampliar as áreas manejadas das comunidades ribeirinhas do município de Boa Vista do Ramos – AM e depois replicar o modelo desenvolvimento a outras comunidades na Amazônia brasileira.

*Matéria originalmente publicada no portal EcoDesenvolvimento.org