“Nunca peça desculpas pela forma como conseguiu sobreviver”

Relacionamentos ficam melhores com o tempo. Não porque as coisas se ajustam e os problemas vão embora. Mas porque depois de um tempo convivendo com a pessoa amada, você aprende (ou deveria) a conhecer melhor aquela pessoa e passa a entender como se dão as situações de crise. Passando por um bom número de situações de crise e continuando com o mesmo relacionamento por vontade própria, você desenvolve (ou deveria) auto-estima suficiente para aceitar os defeitos e mal-feitos  do outro, sem se sentir diminuído, ainda que machucado.

Você está no relacionamento porque quer, pois já teve prova suficiente de que a pessoa não vai mudar, e passar por cima dessas situações ruins é a sua única alternativa para continuar bem. Aceitar e seguir em frente, da forma como você conseguir. Seja escrevendo, fazendo novas amizades, indo ao cinema, à praia, ao bar.

“Nunca peça desculpas pela forma como conseguiu sobreviver”, foi uma frase com a qual Carol se deparou num Tumblr enquanto navegava na internet para passar o tempo. Salvou aquilo porque lhe tocou bem fundo. Ela ainda estava aprendendo a sobreviver em um relacionamento de quase um ano, com uma moça que conheceu nos corredores da faculdade. Linda, leve e solta, com olhos verdes hipnotizantes, ela sabia da própria beleza e gostava de ser admirada.

Nesse quase um ano elas já tinham se separado e voltado várias vezes, brigavam quase toda semana. Mas a saudade era maior do que a dor de se sentir rejeitada a cada nova investida que a namorada fazia fora do relacionamento. Nunca era nada demais. Olhares com segunda intenções aqui e ali em restaurantes e bares, mesmo quando estavam só as duas. Atenção e carinho demasiado com outros colegas da faculdade, e às vezes mensagens carinhosas chamando outras pessoas pelo apelido que as duas se chamavam. Aquelas situações tinham consumido a garota por inteiro, diversas vezes, e agora ela preferia se afastar a cada novo episódio para se recuperar sozinha da própria rejeição, em vez de fazer outro escândalo.

Não estava sendo fácil. As duas estavam há três dias sem se falar direito porque Carol leu uma conversa animada no WhatsApp da namorada. Dessa vez ela fez questão de não fuçar o telefone escondido, reuniu coragem e perguntou porque ela estava escondendo a tela enquanto respondia. Acabou lendo a conversa inteira e levou um banho de água fria. Na mesma hora fechou a cara e se despediu sem falar muita coisa, pediu um Uber e voltou mais cedo do show para casa, remoendo sozinha a situação em que se encontrava.

“Eu não achei que precisava te contar, ela veio falar comigo sobre a festa de despedida da turma de Teoria. Eu ia te chamar para ir comigo quando chegasse mais perto”. Esse era o tipo de resposta recorrente, “não sabia”, “não percebi”, “não tinha entendido”, “não tinha a intenção”. Enquanto se colocava novamente em cada uma das situações que já tinha passado e se diminuído por elas, ela chorou no banco traseiro do carro. Naquele momento a raiva tomou conta e ela não conseguia pensar em mais nada. Só dali a três dias ela entenderia que precisava encontrar uma forma de sobreviver. Mas como? Já era hora de achar um bote salva-vidas para não se afundar em mágoas.

Volta pra mim

– Claaaara! Claaara!

A essa hora da madrugada o bairro inteiro já estava dormindo e apenas uma janela remanescia com a luz acesa, e não era a de Clara, era a de outro quarto na casa ao lado. Mas Luiz não se importava. Ele havia tentado falar com Clara a noite toda sem nenhum sucesso, agora se encontrava na rua dos Araçás, num bairro residencial de casas, às três da manhã gritando o nome da moça. O breu da rua era evitado por aquela única janela e por um poste a quinze metros de distância, mas ninguém se importava.

– Clara, volta pra mim! — Ele insistia para a janela fechada do segundo andar de uma casa alta e bonita, com um muro alto e cheio de plantas na sua frente.

Insatisfeito, resolveu ligar mais uma vez e o som do celular dela ressoou à distância. Ele reconheceria aquela música em qualquer lugar, em meio a qualquer barulho, quanto mais no silêncio em que ele se encontrava. Agora tinha certeza de que Clara sabia que ele estava ligando e não se importava.

– Clara, por que você não me atende? — Deu um grito meio abafado, inconformado com a situação, mas outra vez nada. Sua voz sumiu e Luiz começou a chorar.

Abriu um berreiro como se tivesse dois anos de idade. A garota por quem havia sido (e ainda era) apaixonado por tanto tempo, aquela com quem perdeu a virgindade e com quem fez planos de viagem volta ao mundo não falava com ele há duas semanas, e agora o evitava. Se ele havia feito algo errado, já não se lembrava, ela tinha que vir pelo menos enxotar ele dali e dar alguma satisfação. Era preciso continuar.

Mas a raiva pelo gelo de muitos dias e que o tinha feito beber por toda noite, se dissolveu em lágrimas e agora ele sentia um grande desespero. Não sabia mais o que fazer, para onde ir, será que deveria dormir ali? Ela passaria por ele pela manhã? Não havia o que fazer se voltasse para casa. Para que voltar a viver esses dias de rejeição se ela não estaria com ele para deixar tudo mais fácil? Por um segundo, achou que ela ouvia seus pensamentos e dava uma risada.

– Clara, eu ainda estou aqui! — Berrou com todas as forças que lhe restaram. — E vou ficar aqui até você voltar para mim!

Parece que essa foi a gota d’água porque de uma hora para a outra alguns vizinhos resolveram intervir. Luzes nas casas vinhas se acenderam e era possível ouvir alguns gritos de reclamação.

– Vai dormir, babaca! – Luiz ouviu de uma casa azul do outro lado da rua. Enquanto o vizinho da janela que antes estava acesa apareceu na sacada e gritou em sua direção:

– Clara viajou!

Os cachorros da vizinhança também resolveram se manifestar, os gatos começaram a miar e, se não estivesse tão grogue Luiz podia jurar que ouvia um galo. Mas nenhum sinal de vida vinha da casa de Clara.

Agora ele estava pequeno, franzino, encolhido no canto do passeio, ainda com uma lata de cerveja na mão e o celular na outra. Queria desaparecer, se arrependeu do show que estava dando e agora morria de vergonha. Sua casa com o cheiro da rejeição que carregava em si, por alguns instantes lhe pareceu uma ideia melhor do que a rua pública.

Olhou mais uma vez para a janela dela, analisou se pular o muro cheio de plantas valeria a pena, mas tinha certeza que se tentasse sairia dali sem um braço ou uma perna. Olhou ao seu redor, o vizinho da casa ao lado ainda estava na sacada. Outras luzes agora também acendiam nas casas, mas da janela do segundo andar da casa da frente não vinha nenhuma comunicação. Será que ela havia esquecido o celular? Onde estavam os pais dela que não vinham consolar ele? Será que aquela dor no peito que vinha sentindo há dias iria passar algum dia?

Jogou a lata de cerveja na rua e foi andando rumo ao ponto de ônibus, para voltar para casa. Sua vergonha o arrastou dali.

Enquanto atrás da janela, dentre as persianas, Clara observava seus passos sob a luz do poste. Ele agora iria embora e o seu coração podia se acalmar. Pensou que tinha sido bom que seus pais tinham viajado nesse fim de semana. Amanhã teria que encontrar os vizinhos curiosos e fingir que nada tinha acontecido, diria que não estava ali. Acabou.

Quase trinta

Agora que chegava aos trinta pensou que nunca esteve pior, pelo menos no que diz respeito ao físico. Tinha parado de praticar academia há seis meses e restavam apenas as caminhadas às seis horas da manhã, três vezes na semana, sozinha, enquanto todos da casa dormiam. A disposição gerava alguma admiração entre os familiares mas não lhe rendia frutos. Não conseguiu reduzir nem um centímetro sequer do corpo e, apesar da insatisfação, continuava com a rotina porque pior sem ela.

Um triste dia, cansada de imaginar que em algum momento da juventude tivera um corpo magro e que nunca mais voltaria a ele, resolveu fazer algo a respeito e se inscrever em uma atividade de luta — algo que queria experimentar desde quando era adolescente.

Na hora marcada da aula, terça-feira às 20h, lá estava ela completamente não à vontade num ambiente que conseguia achar defeito até na catraca de acesso. Nunca gostou de academias, pelo contrário, tinha grande preconceito. Essa era a quarta vez que tentava uma inscrição sabendo que não duraria mais do que dois meses. O ambiente de pessoas com corpos perfeitos a deixava constrangida por ser tão conhecedora das próprias imperfeições.

Tinha os ombros mais largos do que os quadris e era robusta, de grande estrutura. Fosse uma pessoa magra seria mais apresentável e delicada, com ombros e braços finos, como as moças que acompanhava nas redes sociais. Gostava de se imaginar em roupas que não caiam bem no seu perfil e aquilo trazia mais tristeza. Imaginava escolher a roupa que iria para academia e não ficar adequada quanto às alunas que tinham a bunda mirando o céu. Sabia que nunca se sentiria à vontade ali, muito menos sozinha como estava.

Após o grande ato de coragem de participar da primeira aula, três semanas se seguiram e ela continuou frequentando. Criou até uma rotina para poder esperar a aula de forma agradável e que não a fizesse desistir. Chegaria direto do trabalho quarenta e cinco minutos antes, tempo que usaria para colocar a leitura em dia. Aquilo era razão suficiente para continuar, pelo menos enquanto tivesse bons livros.

Na segunda semana já notou seu corpo mais firme e desinchado. Seu humor melhorou consideravelmente, chegou a achar que dentro de um mês estaria magra. Mas isso não aconteceu. Ela percebeu que agora, com os exercícios, tinha passado a se dar o luxo de comer mais bobagens na rua. Como gostava muito de comer, os novos exercícios diminuíam a culpa. E logo entendeu que nunca teria o corpo de uma das moças do Instagram.

Resolveu então olhar pelo lado positivo. Ela nunca foi magra, assim como se vê nas redes sociais. Os exercícios, apesar de acompanhados de uma grande dose de comida, não mudariam seu corpo mas ajudavam a se sentir melhor consigo mesma. Entender isso foi o primeiro passo para aceitar o que ela era e tentar ser feliz. A primeira medida que tomou foi procurar uma aula de pilates, pois se tinha que sofrer com alguma atividade física melhor que sofresse com algo que se sentia bem.

Na semana seguinte já estava em novo horário, pela manhã, quando se sentia mais disposta para fazer exercícios, dividindo a sala de pilates apenas com a professora. Estava com um bom sentimento sobre toda aquela mudança, Achou que estava a caminho da vida que queria ter.

Quando você já quer o novo

Seu aniversário é daqui a algumas semanas, mas sua mãe já comprou seu presente. É um sapato que você vem namorando há algum tempo. Já guardou fotos e mais fotos dele no seu celular, no seu painel de Pinterest, e finalmente ele é seu — mas só daqui a algumas semanas.

Por enquanto ele fica embalado numa caixa esperando o grande dia. Por enquanto você pode apenas tirar o sapato da caixa e provar por alguns minutos. Quem sabe ele combina com a roupa que você vai vestir para ir ao trabalho hoje?

Você imagina, veste a roupa, vai onde a caixa está guardada, calça o sapato em frente ao espelho e vê que ele combina sim com a roupa que está vestindo, ou até melhor do que qualquer outro sapato que você tem no guarda-roupa. Mas ainda não chegou a hora.

Você guarda tudo de novo: sapato dentro do saquinho, saquinho dentro da caixa, caixa dentro da embalagem e embalagem no lugar onde o presente estava guardado. Pega o sapato antigo, veste e vai trabalhar. Você já quer o novo, mas a hora ainda não chegou.