Crônicas

Alguém igual

Sem conseguir dormir, Flavinha passeava pelo feed do Instagram às duas da madrugada, quando se deparou com um meme que lhe provocou uma gargalhada desgovernada. Queria compartilhar com alguém, mas quem? Ultimamente estava bastante afastada das amigas da faculdade, só trabalhava e voltava para casa. Sua mãe não iria entender. Seu namorado poderia levar para o lado pessoal. Ficou angustiada, não tinha para quem enviar a piada. Acabou mandando para uma colega de trabalho com quem se dava ultimamente e compartilhava o mesmo humor. Não eram próximas, mas ela riria.

Foi aí que a madrugada pareceu não ter fim. A moça pensou que volta e meia sentia-se sozinha, por mais que estivesse acompanhada. Na escola, quando todos os amigos gostavam das mesmas músicas e festas, ela não suportava. Odiava a bebida e as danças salientes. Achava uó. Na faculdade, quando todos gostavam das mesmas coisas, ela não gostava das pessoas. Não teve conexão instantânea com ninguém e achava que o grupo recém-formado forçava uma intimidade e alegria que não existiam. Não ia às festas. Agora, trabalhando, com colegas que ela considerava família, não tinha com quem conversar sobre os assuntos que lhe tiravam o sono.

Certa feita, um amigo com quem tinha acabado de ter uma discussão lhe disse “na sua vida, todo mundo vai te decepcionar. Você vai ter que aprender a seguir em frente”. Aquelas palavras voltavam à sua memória naquela noite, tinha brigado com a mãe pelo telefone, não queria continuar pensando nas palavras duras que acabou dizendo. Agora se sentia muito só. Ficou pensando que se encontrasse alguém como ela na rua, alguém com as mesmas preocupações, defeitos e qualidades, saberia lidar consigo mesma e não se sentiria sozinha. Essa mesma pessoa, por ser alguém que levava em consideração o bem-estar de quem está do lado, não seria egoísta nem leviana com seus sentimentos. Essas eram características que ela sabia que existiam em si, que admirava em si.

Ao mesmo tempo pensou que há dias em que nem ela mesma se aguenta. Tanta cobrança por perfeição, tanta exigência em sair tudo do jeito que ela acha que deve ser, que sufoca a si mesma. Pensou que estar do lado de alguém que não gosta de perder o controle exigiria muita paciência, e resolveu tentar não se importar mais com o que não podia controlar. Não se importaria tanto com a conversa com a mãe, por hora ia tentar tirar a cabeça daquele problema e dormir, no dia seguinte mandaria uma mensagem pedindo desculpa. À noite, quem sabe, tentaria falar por telefone novamente.

Ali, sozinha na madrugada, chegou à conclusão que não resolveria ter pessoa igual a si mesma para se fazer companhia. Ela sabia como era bom ter alguém com quem dividir um meme engraçado na internet, como era bom ter com quem desabafar quando alguma coisa não estava dando certo como imaginava, como era bom ter com quem rir enquanto esperava que os problemas se resolvessem porque ela já não podia fazer mais nada. Mas todo mundo um dia se frusta com todo mundo, às vezes a culpa seria dela mesma, e ela teria que aprender a viver com isso. Resoluta, foi dormir. Sabia que não tinha resolvido nada da própria vida, mas tinha resolvido a forma como encararia os próximos dias e essa confiança bastava.

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