Contos

A única certeza

Há momentos da vida em que é preciso ter a sensação que você está prosperando, indo de encontro a tudo o que lhe prometeram e lhe é cabido. Mas quando você rema, rema e não sai do lugar, como lidar?

Foi assim que Fabrício estava se sentindo depois de ter recebido um telefonema que o deixou sem chão por alguns segundos. Aquele estava sendo um dia exaustivo, ele passou a manhã numa reunião improdutiva que só lhe rendeu um pensamento “quanto dinheiro parado”. Foi ideia dele chamar o cliente para conversar porque não era possível que o pagador estava “teimando em fazer errado”. Queria explicar a melhor forma de resolver o problema, mas durante a conferência o cliente fingia que concordava com tudo o que ele dizia e depois desmentia com a própria vontade.

Cansado de bater com a cara na parede, Fabrício pediu o fim do encontro e lavou as mãos. Não queria gastar mais energia naquilo em que não levaria a lugar nenhum, o cliente novo no cargo não entendia muita coisa do negócio e chegou ali querendo mostrar serviço, reinventar a roda. “Deixa ele se estrepar”, pensou. Às vezes as situações de trabalho vão além do fazer o melhor ou simplesmente fazer a coisa certa, há antes o fazer a vontade.

Foi almoçar despreocupado, apesar de contrariado. Ele tinha todo um projeto para o cliente mas não trabalhava para uma empresa própria e por isso, não tinha a palavra final. Mas isso era bom porque no fim das contas era apenas um intermediário que estava ali para resolver um problema, não era o responsável por gerir o negócio e no fim das contas podia soltar o bom e velho “eu avisei”.

Mas na volta do almoço, já sentado em sua mesa de trabalho, recebeu a ligação pela qual estava esperando há alguns dias. Era o feedback de uma proposta que tinha feito para um possível cliente da sua empresa pessoal. Um projeto bacana que iria alavancar seu nome, o primeiro passo para sair do emprego atual que já desempenhava há 7 anos, sem novas perspectivas de crescimento. Mas não deu certo.

“A gente gostou muito do seu projeto, mas resolvemos seguir com outro que também estávamos avaliando”. “Sim, claro, caso a gente queira fazer algo menor voltaremos a entrar em contato”. “Muito obrigada pelo seu tempo e disponibilidade”.

Como lidar com tamanha frustração? Como segurar a insegurança que se abateu depois para os colegas? Ele tinha recebido mais um não. Um não que reduziu as metas que ele tinha definido a sonhos não alcançados, e como ele odiava viver de sonhos. Gostava muito mais do que era realidade palpável, mensurável, tangível. Não sabia como continuar aquele dia além de lidando com os assuntos insossos do trabalho. Sem pensar muito, sem remoer o assunto, apenas seguindo em frente aguardando que outra coisa surgiria e que um dia tudo daria certo de alguma forma. Ele só tinha certeza da mudança.

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