A paixão por Mr Knightley

“Deus sabe que tenho sido um enamorado bastante medíocre. Sim, veja bem, você compreende meus sentimentos (…) e vai poder retribuí-los se puder. De momento só peço para ouvir, ouvir mais uma vez a sua voz”.

 

Manu caiu para trás, deitada na cama, num grande suspiro. Perdeu as contas de quantas vezes já tinha lido esse trecho do livro nos últimos dias. Sabia que já era a segunda vez que havia lido naquele dia – uma logo quando acordou e outra depois, agora, depois de chegar do trabalho. Ainda não tinha jantado ou tomado banho, não tinha fome e não estava com vontade de fazer nada, só ficar ali agarrada com o livro imaginando.

Ela só pensava na história de Emma. Ela só imaginava o que sentiria no lugar da protagonista ouvindo a declaração de Mr Knightley. Ela sonhava acordada com alguém de caráter e personalidade tão forte e tão correto do seu lado. Lia e relia os trechos do livro. Via e revia os quatro episódios de uma minissérie da BBC que tinha encontrado na internet. Quando estava trabalhando, seus momentos de descanso eram presa ao celular, no Youtube, revendo os trechos da série disponíveis. A parte da dança entre Emma e Knightley sempre lhe deixava emocionada e a declaração no jardim da casa de Emma era um dos seus vídeos favoritos. Seu coração se aquecia e ela se esquecia das decepções que estava vivendo no próprio relacionamento.

Manu agora estava com vinte e cinco anos, e já se considerava alguém com experiências de vida. Já tinha feito intercâmbio fora do país e tinha muitos amigos, mas por ter uma personalidade reservada, tinha intimidade com poucos. O mesmo princípio usava para aqueles com quem se relacionava emocionalmente, apesar de já ter ficado com um bocado de rapazes, só havia namorado um – o atual.

Com o namorado, a moça dividia os mesmos hábitos de ler, ver filmes, ir a cafés e restaurantes, ter poucos e bons amigos. Mas se seus gostos eram iguais, suas personalidades não podiam ser mais diferentes. Enquanto Manu era reservada na vida pessoal, o rapaz era expansivo e gostava de ser o centro das atenções onde quer que fosse. No início do namoro, essa diferença não deixava com que se entendessem por muito tempo e os faziam brigar todo fim de semana, quando passavam mais tempo juntos. Naqueles dias, estavam brigados novamente, ela colecionava mais uma desilusão, estava convencida de que ele se envolvia emocionalmente com uma colega do trabalho.

Manu tinha um gosto pitoresco quando o assunto eram comédias românticas, ela costumava escolher suas preferidas de acordo com o relacionamento dos personagens, e principalmente pela personalidade do personagem masculino. Tinha inclinação para os não sociáveis e de bom caráter, por isso Jane Austen fazia tanto sucesso na sua estante. Orgulho e Preconceito tinha ganhado seu coração quando ainda era menina. Mr Darcy era um esquisito que não fazia questão de agradar ninguém, mas quando estava apaixonado movia montanhas para agradar a amada. Para Manu, assim como para Lizzy, a arrogância e o desdém pelos sentimentos alheios podiam ser superados pelo amor. Ele era o parceiro ideal – até a chegada de Mr Knightley.

Agora já mais velha, resolveu ler todos os livros da escritora, começando por Emma, mas não conseguiu ir adiante porque só relia. Sua obsessão pela história fez com que buscasse filmes e minisséries derivadas, seguisse os atores nas redes sociais e assistisse todos os vídeos de entrevistas disponíveis. Manu passou tanto tempo stalkeando o ator que fazia Mr Knightley na minissérie da BBC que o pegou trocando likes e elogios com uma atriz albanesa, com quem fez par romântico em outro filme. Primeiro ficou magoadíssima, afinal o ator era casado. Depois pegou ranço da menina, porque achou que as investidas dela eram mais abusadas do que as dele, e lhe pareceu que a garota estava forçando. Passou dias observando as ações de um e de outro, e refletindo como aquilo que acontecia no casamento do ator também se repetia no seu namoro. Acabou não conseguindo mais assistir a minissérie.

Pudesse, Manu namorava Mr Knightley, mas ele não existia. Era um personagem cuidadosamente moldado por Austen para ser tudo o que um homem deveria ser: sincero, racional, protetor, atencioso, etc. Aceitar que aquilo nunca se repetiria na vida real era difícil, porque Manu cresceu acreditando naquela possibilidade, foi criada para aquilo. Acho até que, mesmo que os dias passassem e ela esquecesse um pouco de Mr Knightley, ela não esqueceria do ideal.

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